
Por Rafaela Turini
Seja muito bem-vindo ao “Ano Um” da nova era fiscal brasileira. Se você piscou durante o réveillon de 2026, pode ter perdido o momento em que a EC 132/2023 deixou de ser um slide para se tornar realidade nas Notas Fiscais. Depois de um 2024 e 2025 intensos, marcados pelas aprovações das Leis Complementares e PLPs, o sistema tributário brasileiro finalmente começou seu “test drive”. A partir de agora, não estamos mais discutindo se a reforma vai acontecer, mas sim como não deixar o motor do seu ERP fundir enquanto operamos com dois sistemas simultâneos. O ano de 2026 é o nosso laboratório: uma alíquota simbólica de 1% (0,9% para a CBS federal e 0,1% para o IBS de estados e municípios) que serve como um ensaio geral, conforme previsto no cronograma oficial do Ministério da Fazenda. Na prática, você paga esse 1%, mas o abate das guias de PIS/Cofins, mantendo a carga neutra. O objetivo do governo não é o seu dinheiro — pelo menos não este ano —, mas sim testar o novo sistema por onde os bilhões passarão a partir de 2027.
Mas e agora, o que fazer com esse 1%? A prioridade absoluta é a conformidade tecnológica. Se antes o erro no NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) resultava em uma multa esquecida num fundo de gaveta, agora ele poderá travar sua nota fiscal no ato. A “Calculadora do Fisco” já está rodando em tempo real, e o seu TI precisa ser o melhor amigo do seu contador. O senso de urgência não é exagero: o estudo “Tributos no centro” da PwC Brasil revela que 83% das empresas esperam um impacto alto e imediato em suas operações, mas, curiosamente, 37% delas ainda admitem estar apenas na fase inicial de avaliação. É o equivalente a saber que um furacão está vindo e decidir começar a ler o manual de como pregar tábuas na janela no dia em que o vento começa a soprar. Se você não quer fazer parte dessa estatística de “despreparados”, o momento de revisar o cadastro de produtos e a parametrização do sistema é ontem.
A grande estrela (ou vilã, dependendo de quem você perguntar) é o Split Payment. A partir de agora, o imposto será retido no momento do pagamento pelo banco ou adquirente. Aquela prática comum de usar o valor do imposto como capital de giro por 30 dias morreu. Se o seu financeiro não recalcular o fluxo de caixa considerando essa retenção imediata, a surpresa no final do mês será amarga. Outro ponto crítico é a gestão de créditos. No novo sistema de não-cumulatividade plena, quase tudo gera crédito, mas apenas se a nota estiver impecável. O risco financeiro aqui é real: dados da KPMG Brasil indicam que 86% das empresas ainda não têm uma visão clara dos impactos da reforma em seu Ebitda. Isso significa que a maioria está navegando no escuro, sem saber como a nova dinâmica de créditos e débitos afetará a lucratividade final.
A pergunta que não quer calar é: quem deve estar na sala de “guerra”? A reforma é, na verdade, uma “reforma de negócios”. O impacto vai muito além do tributário; ele altera a precificação, a logística e até a estratégia de vendas. Você precisa de um comitê multidisciplinar que envolva TI, Jurídico (para revisar contratos com cláusulas de repasse tributário), Comercial e RH. Aliás, a disputa por talentos está acirrada para suprir essa demanda técnica. De acordo com o Guia Salarial da Robert Half, 53% das empresas pretendem contratar especialistas especificamente para atravessar essa ponte da transição. Não é apenas sobre preencher guias, é sobre repensar a margem de lucro em um cenário onde as alíquotas nominais podem chegar a 28%.
A expectativa para o restante de 2026 é de uma “corrida de saneamento”. Enquanto o Sudeste lidera o nível de preparação — com 29% das empresas em fase de conclusão de análise, segundo a PwC — outras regiões ainda patinam. O cronograma não espera ninguém: em julho de 2026, teremos a estreia do CNPJ para pessoas físicas contribuintes do IBS/CBS e, em janeiro de 2027, o PIS e a Cofins serão definitivamente extintos. O conselho de ouro para este ano teste é: erre agora, erre rápido e erre barato. Use o sistema de 1% para encontrar os gargalos do seu ERP e treinar sua equipe. No mundo dos tributos, 2026 é o ano do treino; em 2027, o jogo é para valer e o juiz não vai aceitar reclamações de quem deixou o planejamento para a última hora.
Rafaela Turini é Tax Project Planning na Colgate-Palmolive, VMO especialista em Tax Transformation e Reforma Tributária. Contadora com MBA em Gestão de Projetos pela FGV. Mentora de Carreira no Projete o Futuro. Escritora – Projeto Maternidade Executiva.
Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.



