Um sistema tributário muito simples pode não ser justo, afirma Heron Charneski

Por Enzo Bernardes

Um sistema tributário muito simples pode não ser justo, afirmou Heron Charneski, fundador do Charneski Advogados. Segundo o executivo, todos defendem um sistema tributário mais simples. Porém, ele também precisa cumprir outras funções, como ser eficiente e garantir a arrecadação de forma justa:

“Existe um limite para a simplicidade, a partir do qual ela não pode avançar sem comprometer outros objetivos e garantias do sistema, como a segurança jurídica, a legalidade e a própria igualdade, baseada na capacidade contributiva das pessoas. Esse é o dilema: um sistema excessivamente confuso e complexo dificulta o cumprimento da lei e acaba estimulando a sonegação”, disse.

A declaração foi feita durante mais uma edição do podcast Tax Capital, do Portal da Reforma Tributária, mediado pelo editor-chefe Douglas Rodrigues, que marcou o lançamento do livro Questões de Princípios – Arquitetura Jurídica da Reforma Tributária, reunindo artigos escritos para a coluna do advogado no Portal.

A ORIGEM DA OBRA

Heron explicou que a ideia da coluna surgiu após a defesa do doutorado, e que o objetivo inicial não era esgotar o tema, mas provocar reflexão, passando um ponto de vista de que a “simplicidade não é tão simples assim”:

“Ao longo de um ano, foram apresentados pontos de vista sobre esses cinco princípios, que não se limitam apenas ao IBS e à CBS. Quando se fala em simplicidade, cooperação, defesa do meio ambiente, transparência e justiça tributária, trata-se de princípios de todo o sistema tributário, agora expressamente incorporados à Constituição, além dos dois específicos do IBS e da CBS”, disse.

Ele observou que, para muitos, esses princípios não são propriamente novos, pois já podem ser encontrados em outros dispositivos da Constituição, mas ainda assim contribuem para orientar a compreensão e a interpretação das regras trazidas pela reforma tributária.

Nesse sentido, Douglas concorda: “Muita gente diz — e eu concordo — que essa reforma está longe de ser simples. Temos analisado ponto a ponto e mostrado que, neste momento, ela tem trazido mais trabalho e até ansiedade para algumas pessoas. Já ouvi de contadores e tributaristas a mesma crítica: a reforma fala em simplificação, mas, na prática, não parece nada simples”.

O editor conectou o argumento ao princípio da justiça tributária e destacou que os próprios debates do podcast evidenciam essa tensão. Segundo sua avaliação, embora uma alíquota única pudesse tornar o sistema mais simples no Brasil, isso não garantiria justiça tributária. 

Nesse sentido, afirmou que a reforma procura equilibrar esses fatores, com a transparência desempenhando um papel central nesse processo.

SISTEMAS

Douglas chamou atenção para os riscos de uma visão muito técnica da reforma e para os impactos no dia a dia das empresas. Na avaliação dele, muitas organizações estão focadas em ajustes operacionais e na troca de sistemas, sem refletir se essas decisões farão sentido no médio prazo. 

Para o editor, o empresário não pode dedicar grande parte do seu tempo apenas às questões tributárias, já que sua atividade principal é tocar o negócio, vender e gerar resultados.

Charnesky concordou e reforçou que esse é um dos alertas centrais do livro:

“Há um equívoco em tratar a reforma apenas como uma mudança tecnológica ou, pior ainda, meramente operacional. É claro que a reforma tributária em curso no Brasil tem um forte componente tecnológico. A adoção do split payment, os mecanismos de garantia da arrecadação e o uso da nota fiscal como instrumento de dívida só se tornam viáveis com o apoio da tecnologia — e, nesse aspecto, o Brasil está bastante avançado”

Do ponto de vista operacional, ele destacou que a prioridade das empresas deve ser garantir a adaptação dos sistemas, de forma que notas fiscais e arquivos XML passem a refletir corretamente as obrigações e as notas técnicas.

LEGADO

Douglas comentou que acompanhou o surgimento das colunas, mas não imaginava que o projeto se transformaria em um livro. Segundo ele, a iniciativa ganha relevância institucional ao passar para o formato editorial, já que isso amplia o alcance do conteúdo e permite que o material circule em bibliotecas, o que considerou especialmente significativo.

Nesse sentido, o editor questionou: “daqui a dez anos, quando alguém pegar o seu livro, o que você espera que essa pessoa entenda sobre a reforma, que ainda não está clara?”.

Heron respondeu com uma visão histórica: “Daqui a dez anos, espero poder olhar para a reforma — e que as pessoas também a vejam — como uma mudança necessária, que precisou ser feita. Que haja, inclusive, espaço para corrigir aquilo que não funcionou como esperado, sem que isso gere desânimo, porque a busca pela segurança jurídica e pela justiça é permanente. Ela continua”, finalizou.

O livro Questões de Princípios – Arquitetura Jurídica da Reforma Tributária já está disponível para compra.


Revista da Reforma Tributária

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