
Por Gabriel Benevides, de Brasília
Dados do Banco Central mostram o impacto da tributação sobre dividendos na economia do Brasil, segundo especialistas consultados pelo Portal da Reforma Tributária.
O reinvestimento de lucros no país ficou negativo em R$ 11,4 bilhões em dezembro de 2025. Este foi o pior resultado do indicador para a série histórica, como mostra o gráfico abaixo:

Professor da UFPE e economista-chefe do Lide Pernambuco, Ecio Costa explicou que o déficit significa uma distribuição de lucros acima dos resultados auferidos.
O especialista ressaltou que o cenário veio durante a corrida para aprovar dividendos, porque a isenção foi mantida até 31 de dezembro de 2025 (entenda mais abaixo na reportagem).
Ele avaliou haver tendências para uma eventual piora no indicador, como uma balança comercial mais fraca em relação a anos anteriores. Segundo Ecio, uma das consequências seria a dependência do uso de reservas internacionais.
“Se começar a ter uma queda mais significativa desse investimento estrangeiro direto no país, podemos ter situações mais complicadas”, declarou o economista.
Sócio e economista sênior na Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto concorda que houve uma fuga de capital em dezembro por causa da nova tributação.
Ele lembrou que há uma recorrência de resultados negativos ao final do ano. Mesmo assim, o déficit de dezembro de 2025 foi maior que o usual. Observou-se uma alta de 225% no rombo em dezembro de 2025 ante o mesmo mês do ano anterior.
“Foi bem além da sazonalidade. Claro que é uma evidência bastante clara de que houve por parte dos detentores das participações nas empresas uma corrida para distribuir os resultados”, afirmou Silvio.
Outro indicador relevante é o Investimento Direto no País. O saldo foi deficitário em R$ 5,3 bilhões no final de 2025, também o menor valor da série histórica.

Rodolpho Sartori, economista da agência de risco Austin Rating, avaliou que o resultado não deve se manter a longo prazo. Ele disse que a tributação sobre dividendos é prática comum em outros países, mesmo reconhecendo o impacto a curto prazo.
“Apesar do resultado ser bastante negativo para o mês, não vejo como um início de queda estrutural no investimento direto no Brasil”, declarou.
ENTENDA A TRIBUTAÇÃO DE DIVIDENDOS
A lei da reforma da renda (nº 15.270 de 2025) determina até 10% de Imposto Mínimo sobre remessas de dividendos acima de R$ 50.000 ao mês com distribuição aprovada depois de 31 de dezembro de 2025.
A medida é uma das formas de bancar a isenção de Imposto de Renda para os brasileiros que recebem até R$ 5.000 ao mês.
Uma das razões que levou à distribuição de dividendos acelerada no fim do ano foi a data para o início da tributação. A Lei das S.As. (nº 6.404 de 1976) tem previsão para as empresas aprovarem a distribuição dos lucros até abril do ano seguinte, prazo geralmente utilizado no mercado.
Ou seja, para evitar que as remessas de lucros sejam tributadas logo após dezembro muitas companhias aceleram a distribuição –mesmo sem ter fechado o balanço financeiro.



