
Por Vitor Torres
O Brasil é, por natureza, um país de empreendedores resilientes. E essa extraordinária força motriz da nossa economia está prestes a ser testada por uma das transformações mais profundas das últimas décadas: a Reforma Tributária do Consumo. 2026 inaugurou o capítulo do ano-teste desta transição. A chegada do modelo de IVA dual — com a CBS e o IBS — trará a tão aguardada promessa de simplificação no longo prazo.
No entanto, para as micro e pequenas empresas, o curto e o médio prazo exigem um nível de adaptação operacional e uma mudança de mentalidade sem precedentes. No paralelo, este cenário decreta o fim da contabilidade puramente burocrática. Diferentemente das grandes corporações, os negócios menores não dispõem de departamentos internos dedicados a interpretar normas ou regulamentações e ajustar sistemas em tempo real.
Por isso, é aqui que o jogo vira e o contador ocupa a cadeira de estrategista para os prestadores de serviços, os profissionais liberais e os autônomos. A realidade não tem como base apenas uma troca de siglas; ela reescreve a lógica de creditamento, a formação de preços, as margens de lucro e o fluxo de caixa. Mas, afinal, como a contabilidade atuará na prática para blindar e impulsionar as MPMEs neste ano de transição?
O primeiro grande pilar de atuação do contador será a simulação de cenários para definir o enquadramento tributário. No ano-teste, a inteligência contábil trará respostas para perguntas vitais: vale a pena continuar no Simples Nacional? É hora de migrar para o Simples Híbrido ou Lucro Presumido? Já é preciso tomar essa decisão agora em setembro? O profissional contábil fará exercícios junto ao empreendedor para projetar esse futuro, cruzando dados da operação para encontrar o caminho mais adequado.
Em segundo lugar, a contabilidade será decisiva para manter a competitividade das MPMEs. Imagine uma empresa do Simples Nacional que presta serviços para corporações do Lucro Presumido ou Lucro Real. Faz sentido recolher a alíquota cheia do novo IVA por fora da guia DAS para permitir a tomada maior de créditos e não perder o contrato? O contador ajudará a recalcular essa rota e a reprecificar o serviço de forma inteligente, garantindo que a empresa não absorva o custo e, assim, corroa a sua margem de lucro.
O terceiro ponto prático é a proteção do fluxo de caixa diante das inovações tecnológicas, como o split payment, ainda em definição. Com a nova dinâmica recolhendo os tributos diretamente na fonte de pagamento, o prestador de serviço não receberá mais o valor integral da nota fiscal de imediato. O contador precisará redesenhar o planejamento financeiro do negócio para garantir que, mesmo com essa retenção na fonte, a empresa tenha liquidez para manter as suas contas e a folha de pagamento em dia.
Por fim, no ano-teste, a qualidade da informação se torna uma vantagem real. O contador atuará na revisão minuciosa de parametrizações, como classificações de CNAE e NCM. Na nova lógica, um erro de cadastro ou uma classificação incorreta de serviço, que antes tinha impacto local, poderá comprometer toda a estratégia. Apoiada por tecnologia e inteligência artificial para absorver o trabalho mecânico, a contabilidade atuará como a guardiã implacável da consistência, orientando ajustes preventivos na convivência entre os sistemas antigo e novo.
A mensagem para o micro, pequeno e médio empreendedor é clara: o ano-teste deverá ser encarado como um laboratório assistido e uma janela de preparação. Aqueles que se anteciparem e mantiverem uma parceria próxima com uma contabilidade consultiva e tecnológica mitigarão riscos e descobrirão oportunidades de eficiência tributária que os concorrentes desatentos não perceberão.
Mesmo com a promessa de simplificação do futuro com a reforma, a travessia exigirá cuidado e direção. Ter a contabilidade como aliada estratégica não é um custo, é o escudo e a principal alavanca de crescimento de uma empresa. É essa parceria analítica e humana que transformará a incerteza regulatória em decisões seguras, permitindo que o empresário mantenha o foco no que ele faz de melhor: inovar e evoluir o seu negócio.
Vitor Torres é CEO e fundador da Contabilizei.
Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.
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