
Por Jean Soares, da Taas Consulting
A narrativa da simplificação pode ser perigosa.
A promessa de um sistema mais simples, baseada no modelo de IVA dual (IBS e CBS), é sedutora. No entanto, para quem está dentro da operação, essa leitura pode ser não apenas superficial, mas estrategicamente arriscada.
É exatamente nesse ponto que surge um dos maiores riscos da Reforma Tributária: a falsa sensação de segurança.
Na prática, especialmente em grandes operações do setor de alimentação, o que se observa é o oposto da simplificação.
Após atuarmos diretamente com grandes redes como KFC, Pizza Hut, Restaurante Viena e Frango Assado, verificamos ser evidente que a complexidade não desaparece com a Reforma. Em muitos casos, ela se aprofunda e se desloca para dentro da operação.
O regime específico não resolve. Ele exige mais controle
A LC 214/2025 instituiu um regime específico para bares, restaurantes e lanchonetes. À primeira vista, isso parece um avanço.
Há redução de alíquotas para itens preparados no estabelecimento e tratamento diferenciado para determinadas operações.
Mas essa leitura é incompleta.
Na prática, o regime não simplifica. Ele exige um nível de controle operacional muito mais rigoroso.
Dentro de um mesmo estabelecimento passam a coexistir múltiplas lógicas tributárias:
- Itens preparados seguem o regime específico;
- Itens revendidos permanecem no regime geral;
- Bebidas alcoólicas e refrigerantes ficam fora do benefício;
- Itens sujeitos ao Imposto Seletivo exigem controle adicional;
- Combinações e kits demandam análise individualizada para fins de tributação.
O ponto crítico muda.
Deixa de ser “o que está sendo vendido” e passa a ser “o que aconteceu com o produto dentro da operação”.
A armadilha das operações verticalizadas
Esse cenário se torna ainda mais crítico em operações verticalizadas.
Empresas com centrais de produção, cozinhas intermediárias, distribuição interna e montagem no ponto de venda, passam a enfrentar uma complexidade exponencial.
Cada etapa da cadeia impacta diretamente:
- o enquadramento tributário
- o direito ao crédito
- a forma de apuração
- a consistência da documentação fiscal
Um mesmo item pode ter tratamentos distintos dependendo de onde e como foi preparado.
E esse risco não está explícito na lei.
Ele está oculto na operação.
O cardápio virou uma decisão tributária
Esse é, possivelmente, o ponto mais negligenciado e mais perigoso.
O cardápio deixou de ser apenas uma decisão comercial.
Ele passa a ser, simultaneamente:
- uma decisão fiscal
- uma decisão de crédito
- uma decisão de margem
- uma decisão estratégica
A composição do cardápio passa a impactar diretamente a carga tributária.
Um item pré-preparado pode gerar crédito integral com determinada tributação na saída, enquanto um item produzido internamente pode alterar completamente essa lógica.
A operação exige respostas técnicas claras para os seguintes questionamentos:
- O item foi preparado ou apenas montado?
- Houve transformação relevante?
- Quais insumos compõem o produto?
- Onde ocorreu cada etapa da cadeia?
Sem essa precisão, o efeito é direto:
Erro de classificação, distorção tributária, perda de crédito e risco fiscal invisível.
Créditos: onde a complexidade realmente explode
Se existe um ponto em que a Reforma Tributária se torna crítica para o setor de alimentação, é na gestão de créditos.
A cadeia alimentar é naturalmente fragmentada, heterogênea e cheia de exceções.
Mesmo com a não cumulatividade, a realidade operacional impõe desafios relevantes:
- Itens com redução ou alíquota zero exigem leitura correta do efeito econômico
- No regime geral, a rastreabilidade passa a ser obrigatória
- Em estruturas híbridas (produção, revenda, consumo no local), pequenos erros geram cumulatividade não percebida
O risco não é teórico.
Ele é silencioso e progressivo.
O maior erro das empresas neste momento
O erro mais comum é tratar a Reforma Tributária como um projeto fiscal.
Ela não é.
Ela é um projeto operacional que envolve toda a empresa.
Empresas que estão focadas apenas em:
- alíquotas
- parametrização de ERP
- atualização fiscal
estão ignorando o verdadeiro problema.
A complexidade não está no sistema.
Ela está na forma como a operação acontece.
O verdadeiro alerta: o problema está dentro da empresa
A legislação, isoladamente, pode parecer mais organizada.
Mas o seu efeito real é expor fragilidades operacionais que antes estavam ocultas:
- cadastros inconsistentes;
- fichas técnicas incompletas;
- ausência de rastreabilidade;
- falhas de integração entre áreas;
- decisões comerciais desconectadas do fiscal.
Tudo isso passa a impactar diretamente:
- tributação;
- crédito;
- margem;
- compliance.
Conclusão
A Reforma Tributária não simplifica o negócio.
Ela exige maturidade operacional.
Empresas que não revisarem profundamente seus cadastros, processos, cardápio, cadeia de insumos e lógica operacional transformarão uma oportunidade de eficiência em um problema estrutural.
E o pior cenário é este:
perceber o problema apenas quando ele já estiver impactando o resultado.
Se a sua empresa ainda está tratando a Reforma Tributária apenas como um tema fiscal, você já está atrasado.
O momento agora é de revisão estrutural da operação.
Se quiser mapear esses riscos de forma prática e construir um plano de ação consistente para 2026 e 2027, vamos conversar.
Jean Soares é CEO da TAAS Consulting.
Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.
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