A evolução do perfil do profissional de Tax

Foto via Freepik

Por Moises R. Coimbra

Introdução

Para o profissional de Tax, o advento do IVA Dual exige uma reinvenção das competências técnicas, tecnológicas e comportamentais. O cenário de transição, que se estende de 2026 a 2033, impõe o desafio de gerir sistemas híbridos, onde a complexidade do modelo antigo convive com a nova lógica da tributação no destino e da não cumulatividade plena. Este breve artigo analisa a fundo as habilidades que o tributarista moderno deve adquirir para navegar nesta transição, transformando-se de um executor de obrigações em um parceiro estratégico do negócio –desde o domínio da nova legislação até a integração profunda com tecnologias de inteligência artificial e a gestão crítica do fluxo de caixa impactado pelo split payment.

Nova arquitetura legislativa

A base fundamental do novo profissional de Tax reside na compreensão exaustiva dos pilares da reforma: o IBS e a CBS. Diferente do sistema atual, marcado pela fragmentação de cinco tributos (PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS), o modelo de IVA Dual busca a simplificação e a neutralidade. 

O profissional de Tax deve dominar os novos conceitos de fato gerador, que agora focam na operação com bens e serviços, independentemente da natureza física ou digital. A habilidade técnica primordial é a interpretação das Leis Complementares regulamentadoras, especificamente a Emenda Constitucional nº 132/2023, Lei Complementar nº 214/2025 e Lei Complementar nº 227/2026, que definem as normas gerais, as alíquotas de referência e os regimes diferenciados. O tributarista precisa entender a mecânica da “não cumulatividade plena“, onde o aproveitamento de créditos passa a ser a regra geral para todas as aquisições necessárias à atividade econômica, com exceções mínimas para bens de uso pessoal.

Gestão da Dualidade e o Profissional do Sistema Híbrido

A transição tributária brasileira é uma das mais longas do mundo, criando um cenário de coexistência obrigatória por oito anos. Entre 2026 e 2032, o profissional de Tax terá que manter a conformidade do sistema antigo (ICMS, ISS, PIS, COFINS) enquanto implementa os processos do IBS e da CBS. Isso exige uma capacidade de organização e resiliência técnica sem precedentes. O ano de 2026 será o “ano-laboratório”, com alíquotas de 0,1% para o IBS e 0,9% para a CBS. 

O profissional deve estar apto a realizar a “apuração teste”, garantindo que os novos campos nos Documentos Fiscais Eletrônicos (DF-e), como o Código de Classificação Tributária (cClassTrib), estejam configurados corretamente. A falha nessa fase inicial pode comprometer a compensação de tributos federais ou o ressarcimento em espécie previsto na legislação.

Fluência em dados

A tecnologia deixa de ser um acessório para se tornar o alicerce do setor fiscal. O profissional de Tax precisará desenvolver domínio sobre ferramentas de automação, inteligência artificial (IA) e análise de grandes volumes de dados (Big Data). A pesquisa “Tax do Amanhã” da Deloitte indica que a adoção de IA ainda é incipiente (12%), mas a complexidade da reforma forçará um salto tecnológico. A habilidade de utilizar ferramentas como o ONESOURCE Determination ou simuladores de impacto fiscal, torna-se essencial para prever cenários e modelar o custo tributário real. O tributarista deve ser capaz de operar sistemas de Robotic Process Automation (RPA) para eliminar tarefas repetitivas de preenchimento de formulários, focando sua energia em análise preditiva e detecção de riscos fiscais.

Cotidiano Fiscal

  • Inteligência Artificial e Machine Learning: Utilizadas para prever passivos tributários e otimizar a classificação de mercadorias no novo cClassTrib.
  • Blockchain: Fundamental para garantir a transparência e a segurança das transações em tempo real, permitindo auditorias contínuas.
  • Big Data e Analytics: Ferramentas como Power BI e Tableau serão usadas para visualizar o impacto da reforma em diferentes linhas de produtos e geografias.
  • Integração de ERPs: O profissional deve liderar a atualização dos sistemas SAP, Oracle ou similares para suportar o cálculo “por fora” e o split payment.

Soft skills

A transição do perfil técnico para o estratégico exige o desenvolvimento de habilidades comportamentais valiosas. Pensamento crítico, inteligência emocional e resolução de problemas complexos são agora tão importantes quanto o conhecimento do Código Tributário Nacional. O profissional de Tax deve ser um exímio comunicador, capaz de traduzir a complexidade técnica para o Conselho da companhia. A reforma atua como um catalisador de transformações em todas as áreas: Logística (pelo princípio do destino), Marketing (pela precificação), TI (pelos sistemas) e RH (pelo treinamento). O tributarista deve liderar comitês multidisciplinares, garantindo que a empresa não apenas sobreviva à transição, mas aproveite as oportunidades de eficiência e redução de custos operacionais.

Benchmarking internacional

O profissional de Tax deve olhar para além das fronteiras brasileiras. O modelo de IVA Dual aproxima o Brasil das melhores práticas internacionais da OCDE, mas guarda semelhanças específicas com o GST da Índia no que tange à coordenação federativa. Entender como outros países geriram a transição para o IVA e como lidam com disputas de classificação de serviços é uma habilidade que conferirá autoridade técnica ao profissional. A globalização e as novas regras de Transfer Pricing exigem um conhecimento multijurisdicional. O tributarista moderno deve estar apto a discutir como o IBS e a CBS impactam as operações de comércio exterior e a competitividade das exportações brasileiras, agora desoneradas integralmente pelo princípio do destino.

Recomendações para a carreira

A Reforma Tributária é o maior desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade para os profissionais da área fiscal nas últimas décadas. A transição para o IVA Dual exige que o tributarista abandone o papel de “guia de impostos” e assuma o de “estrategista de valor”. A automação e a IA assumirão as tarefas braçais, permitindo que o profissional se concentre em modelagem financeira, revisão contratual e gestão de riscos na cadeia de suprimentos.

Portanto, com o advento da Reforma Tributária, o profissional de Tax deixa de atuar apenas como um especialista técnico e passa a assumir um papel mais estratégico, analítico e multidisciplinar dentro das organizações. Com o intuito de sintetizar, de maneira objetiva e estruturada, os principais pontos até aqui analisados, conclui-se que as competências essenciais a serem desenvolvidas concentram-se nos seguintes eixos:

1. Visão sistêmica e estratégica do negócio – Capacidade de compreender como a tributação impacta toda a cadeia de valor (compras, operações, precificação, supply chain e comercial), apoiando a tomada de decisão.

2. Interpretação normativa e raciocínio jurídico-aplicado – Mais do que conhecer a legislação, será essencial interpretar cenários, antecipar riscos e traduzir normas complexas em aplicações práticas para o negócio.

3. Domínio de tecnologia e dados (Tax Tech & Data Analytics) – Conhecimento em ferramentas digitais, automação, ERP, inteligência artificial e análise de dados será indispensável, especialmente com mecanismos como o split payment e maior digitalização fiscal.

4. Capacidade analítica e pensamento crítico – Avaliar impactos econômicos, financeiros e operacionais das novas regras, simulando cenários e propondo soluções eficientes.

5. Comunicação clara e influência – Saber traduzir temas técnicos para áreas não tributárias (C-level, operações, financeiro), influenciando decisões estratégicas com clareza e objetividade.

6. Gestão de mudanças (Change Management) – A reforma exigirá adaptação organizacional. O profissional deverá conduzir treinamentos, apoiar transições e garantir a implementação das novas práticas.

7. Integração multidisciplinar – Atuar de forma conectada com áreas como TI, jurídico, contábil e supply chain, rompendo o modelo isolado tradicional da área fiscal.

8. Foco em governança e compliance avançado – Com maior rastreabilidade e controle digital, será fundamental fortalecer controles internos, mitigação de riscos e aderência às novas obrigações.

9. Aprendizado contínuo (lifelong learning) – A legislação e os modelos operacionais continuarão evoluindo, exigindo atualização constante e adaptabilidade.

O profissional de Tax de 2033 será um hub de inteligência de dados, garantindo que a conformidade tributária seja um motor de eficiência e não um entrave ao crescimento econômico. A jornada de transformação começou em 2023, mas o destino final, um sistema mais simples e transparente, dependerá da capacidade de adaptação dos especialistas que conduzirão as empresas através desta década de mudanças. Em síntese, o profissional de Tax do futuro será menos operacional e mais estrategista, tecnológico e integrador, com forte capacidade de traduzir complexidade em valor para o negócio. 

Atenciosamente!


Moises R. Coimbra é Consultor em Contabilidade Corporativa e Direito Tributário, e também Consultor Especialista em Reforma Tributária.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.


Revista da Reforma Tributária

Se você ainda não é assinante, adquira aqui o acesso.

Rolar para cima