
Que nosso país é extremamente complexo em vários aspectos dentre eles, a complexidade do ambiente de negócios, com requinte de crueldade quando falamos do sistema tributário local, isso não é novidade para ninguém e muito menos para mim que atuo nesse tema dentro de empresas há duas décadas.
Mas gostaria de refletir um pouco sobre como os profissionais que se expõe ao processo de formação nessa grande máquina brasileira, colhem skills (habilidades) que são valiosíssimas em vários contextos corporativos ao redor do mundo.
Quando comecei a escrever sobre isso, me recordei dos tempos em que criança gostava de assistir à corrida são silvestre no último dia do ano. Me recordo de ouvir dos comentaristas os motivos pelos quais os atletas quenianos eram tão fortes na resistência de seguir correndo, constante e em velocidade média para alta. Eles atribuíam isso as características do país com terrenos desafiadores para corrida, o ar no país que desenvolvia a respiração e a resistência dos atletas, além dos próprios problemas socioeconômicos que forçavam muito dos meninos a deslocarem quilômetros de distância para a escola e muito deles faziam isso correndo.
Claro que não quero colocar numa perspectiva de que esses malefícios enfrentados por eles deveriam ser classificados como benção, mas sempre ouvia aquilo entendendo que as dificuldades que enfrentamos sempre deixam em nós uma superação que nos torna fortalecidos naqueles temas, que antes eram apenas dificuldades.
Nos últimos meses, eu tive a oportunidade de ser exposto a realidades internacionais de gestão financeira, tributária e planejamento financeiro. Em especial nos países Emirados Árabes Unidos e Colombia e gostaria de ilustrar minhas impressões e aprendizados desse tempo, nesse prisma que comento acima.
Como cito um país do oriente médio, gostaria de parafrasear uma expressão atribuída a uma autoridade nesse tipo de cultura, onde ele dizia que: “Tempos difíceis geram homens fortes, homens fortes geram tempos fáceis e tempos fáceis geram homens fracos”.
Talvez como estamos imersos em nossas realidades locais, não tenhamos tanta visibilidade do quanto nos desenvolvemos em um país com juros básicos em dois dígitos, carga tributária elevada e uma altíssima complexidade do sistema de apuração e prestação de contas do nosso país, além de uma correlação muito alta com taxas de câmbio. E durante esses dias, me senti um pouco como os atletas quenianos correndo na subida da brigadeiro como quem caminhava na orla da praia. O contraste de dificuldades enfrentadas por nós no Brasil com os países com os quais estava em contato era gritante, mas também o repertório que eu dispunha para enfrentar os grandes desafios (que para nós não seriam tantos assim) das empresas de lá, me assustou. E é exatamente essa a palavra que devo usar. Eu fiquei assustado com aquilo que para nós seria basilar, sendo inovador e de certa maneira surpresa para os profissionais formados em outro contexto.
Trazendo uma triste realidade do nosso país como exemplo, que é a segurança pública, comentava com um grande líder que me proporcionou um desses momentos no exterior, que no Brasil temos tantos tiroteios, que nos tornamos habilidosos em nos proteger e achar esconderijos.
Novamente, não considero nossas dificuldades uma benção, mas elas nos forjam para sermos especialistas em enfrenta-las.
É importante compartilhar com o leitor as realidades desses dois países, para que enquanto leia (sabendo muito bem nossas mazelas internas) possa compreender o quanto os aspectos de finanças nesses países são mais simples e portanto exigem menos a formação de planejamento e gerenciamento de risco dos profissionais.
Os Emirados Árabes Unidos são um país no oriente médio com poucas regras de tributação e até alguns anos atrás, poderíamos dizer que não havia nenhuma. Ou seja, existe uma geração de profissionais de finanças que sequer necessitavam aprender, em suas aulas na universidade ou nos primeiros anos de estágios, detalhes de tributação, porque isso simplesmente não existia. Claro que isso era uma facilidade para eles e as empresas que realizavam negócios por lá, mas também não podemos negar que também não funcionou como um peso para o desenvolvimento de uma musculatura nesses temas.
O Brasil por sua vez apresenta o cartão de visita a todos na iniciação em tributos, de que é um labirinto gigantesco e que uma coisa é certa, você nunca vai saber toda a legislação e é possível até mesmo que você tenha que escolher um setor de atuação para mitigar essa dificuldade, mas que ao final de décadas você ainda se surpreenderá com algo que ainda não havia visto antes. Por outro lado, a pessoa que começa essa jornada, vai aprendendo entre tropeços e acertos, caminhos, estratégias, desenhos e redesenho que possibilitem um negócio a ser realizado no país, com o impacto tributário mais justo possível.
Aliás, algo que um profissional tributário do Brasil aprende é a desenhar. Temos que imaginar fluxos, processos, ferramentas e até mesmo modelos de negócios que potencializem o negócio ou ao menos, tragam o menor impacto possível a margem num país em que o imposto é preço e muitas vezes fator de desempate com competidores.
É óbvio que o questionamento, o desafio as regras, a análise crítica as opções dadas por consultores especialistas e o censo crítico do profissional vai se formando por consequência. E esse alto nível de excelência, eleva todo o ecossistema ligado a esse mercado. As ferramentas se sofisticam, as autoridades tributárias se modernizam e o debate é sempre de alto nível.
Num contexto em que a tributação ainda é uma bebê, é possível perceber como perguntas basilares passam desapercebidas. Me recordo de questionar amigos profissionais, usando perguntas que me sentia até mesmo constrangido de fazer, por imaginar que isso seria de nível ainda muito baixo, e descobri em muitas das respostas, que aquela provocação abria espaço para desenhos que sequer haviam sido explorados.
Os Emirados Árabes vem se alinhando ao comportamento internacional de tributação baseado nos modelos sugeridos pela OCDE e pude perceber o quanto o processo vivido por nós aqui anos atrás, nos trouxeram mecanismos, caminhos e modelagens que em outros contextos ainda estão nos primeiros passos para compreensão dos conceitos fundamentais.
Lembro me de sorrir ao ouvir que nos próximos anos o país adotará a nota fiscal eletrônica e perceber, em vários diálogos as grandes perguntas que já enfrentamos há décadas por aqui.
Novamente, não se trata de uma avaliação comparativa em que estabelecemos o que é melhor e o que não, mas de uma constatação quase quebrando muitos dos meus paradigmas, de que o Brasil é sim um imenso desafio a nós profissionais, mas que fomos nos tornando tão habilidosos em fazer negócios aqui, que para nós já temos coisas consideradas “comum”, que seriam consideradas extraordinárias em outras realidades.
A Colômbia também é um ambiente de negócio muito mais favorável comparado com nossas estruturas e isso torna o time de finanças muito mais livre para focar em negócios, rentabilidade, sem necessariamente necessitar de tanta estrutura de TI, times enormes de apuração. Mas é bem verdade também que por conta das nossas dificuldades, nos tornamos profissionais altamente conhecedores de ferramentas que aceleram nosso processo, que agilizam nosso dia a dia e que facilitam a tomada de decisão.
Nossa taxa de juros básica também eleva nosso nível de avaliação de estratégias financeiras, ponderando o efeito do custo de oportunidade no fluxo de caixa impactado, por modelos de negócios, diferimentos tributários e estratégias cambiais.
Recentemente pude perceber o quanto que provocações acerca de antecipações de saídas de caixa podem ser antes vista, como uma vantagem totalmente inquestionável, e se tornarem respostas a serem alcançadas com modelagens que avaliam o efeito de trava cambial, com perdas de rendimento de aplicação. Rendimento de aplicação que pode ser mais complexos com ponderação de produtos de menos riscos com outros com um grau um pouco elevado, participando de taxas mais altas e potencializando o caixa da empresa.
Isso vem da nossa dificuldade com o custo do dinheiro brasileiro, mas nos moldou, nossa musculatura analítica cresceu eu se desenvolveu, nos tornando profissionais mais holísticos, que não olham apenas a estratégia de tributação, apenas a estratégia de proteção cambial, apenas o fato de entregar tudo no prazo, mas que pondera isso com tecnologia e conectando os temas, para uma conclusão mais bem suportada a empresa.
Talvez todas esses skills possam ser vistas por você leitor como coisas comuns, básicas e não tão valiosas assim, mas eu posso te afirmar que em outras realidades elas são valorizadas e consideradas em alta estima.
Eu não tinha tanta essa convicção até pode estar nesses países e contribuir com meus amigos, percebendo em suas devolutivas o quanto as perguntas estavam destravando problemas antes considerados por eles insuperáveis e que já estavam até mesmo admitindo que não havia caminho algum possível.
No fim do dia, vale a expressão que tanto nos define como brasileiros: Não desistimos nunca. Aquilo que não nos mata nos fortalece!
Por conta de nossa capacidade de adaptação, somos no contexto de finanças, como os atletas quenianos, subimos a brigadeiro com o sorriso no rosto, como quem passeia pela orla da praia (que aliás, no nosso país são sim uma benção).
Wellington Esteves é CFO do Brasil e Colômbia em um grupo multinacional japonês, com 20 anos de experiência em multinacionais nas áreas de gestão contábil, tributária e financeira. Experiência internacional em ambientes de finanças na américa do norte, américa do sul, oriente médio e ásia. Atuação como professor universitário, escritor de livros textos para universidade e coautor em obra de gestão tributária. Aluno destaque no programa de formação executiva realizado em Londres pela Person London College eleito pelos professores e reitoria, pós graduado pela FUNDACE-USP em IFRS e pós graduado pela Universidade de Taubaté em gerenciamento financeiro e controladoria.
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