Entre o peso do 13º salário, o planejamento de 2027 e a transição da Reforma Tributária, o último trimestre exige das empresas técnica, caixa e visão de futuro

Na imagem, Hélder Santos, professor de finanças e gestão tributária na FIPECAFI

Por Hélder Santos

O último trimestre do ano sempre traz consigo uma atmosfera dupla no ambiente corporativo: a expectativa pelo encerramento de mais um ciclo e a tensão financeira que acompanha as obrigações de curto prazo. Como professor e pesquisador na área de gestão e tributos, observo anualmente empresas de todos os portes cometerem o mesmo equívoco e tratar as despesas de fim de ano como “imprevistos” e postergarem o planejamento do ano seguinte.

No entanto, o cenário atual carrega uma complexidade inédita. Não estamos apenas fechando mais um ano, estamos atravessando o período de teste e transição da Reforma Tributária. Para que sua empresa não apenas sobreviva, mas entre no próximo ano com vantagem competitiva, é preciso estruturar o último trimestre em quatro pilares fundamentais.

1. A GESTÃO DO FLUXO DE CAIXA (13º, FÉRIAS E FESTAS)

O fim de ano é, por excelência, um teste de estresse para o capital de giro. As saídas de caixa se acumulam de forma agressiva, com o pagamento das duas parcelas do 13º salário, provisão para férias coletivas ou individuais, bonificações por metas e as tradicionais festas de confraternização.

Ainda assim, é comum a gestão não provisionar esses valores ao longo dos meses anteriores. Se este foi o caso da sua empresa, a hora de agir é agora. É imprescindível projetar o fluxo de caixa semanal até a segunda quinzena de janeiro. A festa de fim de ano e os prêmios são fundamentais para o clima organizacional e a retenção de talentos, mas devem estar estritamente limitados ao que o caixa permite sem comprometer as obrigações fiscais e trabalhistas. Recorrer a linhas de crédito emergenciais de curto prazo para pagar confraternizações ou 13º pode corroer a rentabilidade do seu negócio.

2. A REFORMA TRIBUTÁRIA

Neste ano de 2026, entramos na fase de testes do novo sistema tributário brasileiro, com a cobrança de 0,9% da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e 0,1% do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). Embora a alíquota seja simbólica no momento inicial, o impacto operacional é gigantesco.

Os últimos meses do ano devem ser dedicados à adaptação tecnológica e processual. Seu sistema ERP já está parametrizado para lidar com o modelo dual? Sua equipe contábil e financeira está capacitada para as novas obrigações acessórias? Além disso, a transição afeta diretamente a formação de preços de venda e a análise de viabilidade de contratos de longo prazo. A Reforma Tributária não é apenas um problema do contador, é uma mudança estrutural no modelo de negócios. As empresas que utilizarem este período de teste para alinhar seus sistemas terão uma vantagem brutal de compliance e precificação no ano que vem.

3. PLANEJAMENTO ORÇAMENTÁRIO ESTRATÉGICO

O orçamento não é uma peça de ficção ou uma mera formalidade burocrática, é a tradução financeira da estratégia da sua empresa. Os meses finais do ano devem ser utilizados para confrontar o “realizado x orçado” do ano corrente. Onde a empresa gastou mais? Onde as margens foram melhores do que o esperado?

Ao projetar o orçamento para o próximo ano, adote uma postura conservadora para as receitas e rigorosa para as despesas. Considere os impactos inflacionários nos dissídios da sua categoria, os reajustes de aluguéis e contratos de software, e, principalmente, a nova carga tributária estimada para o seu setor, em função da Reforma Tributária. 

Um bom orçamento deve possuir cenários de sensibilidade (variações com base em premissas, não apenas em percentuais fixos, como por exemplo alta do dólar ou perda de clientes relevantes) e gatilhos claros de contingenciamento.

4. OTIMIZAÇÃO DE ESTOQUES E CAPITAL DE GIRO

Para o varejo e a indústria, o último trimestre (impulsionado por Black Friday e Natal) representa o maior pico de faturamento. Contudo, vender muito não significa necessariamente ganhar dinheiro. É preciso ter cuidado redobrado com a formação de estoques. O capital imobilizado em produtos que não giram é dinheiro que fará falta na folha de pagamento de dezembro.

Use os dados da empresa para a tomada de decisão e, se preciso, reforce o estoque da curva A (produtos de alto giro e boa margem) e crie campanhas agressivas para liquidar os produtos da curva C, transformando estoque obsoleto em caixa imediato.

Sobreviver aos últimos meses do ano exige abandonar a gestão baseada no “achismo”. O empresário e o gestor moderno precisam olhar para seus números com a frieza de um auditor e o dinamismo de um estrategista. Antecipe suas obrigações trabalhistas, revise seus custos, adeque-se urgentemente à Reforma Tributária e trate seu orçamento como o mapa de navegação que ele deve ser. O ano só termina no dia 31 de dezembro, mas o sucesso do próximo começa agora.

SOBRE A FIPECAFI

Fundada em 1974, a FIPECAFI é uma instituição sem fins lucrativos dedicada ao ensino, à pesquisa aplicada e ao desenvolvimento de projetos técnicos nas áreas de Contabilidade, Finanças, Controladoria e Atuária. Reconhecida pela excelência acadêmica, mantém nota máxima nos principais indicadores oficiais de qualidade do ensino superior, conforme documentação comprobatória. Ao longo de sua trajetória, tem contribuído para a formação e aprimoramento de profissionais, a produção de conhecimento técnico e acadêmico e o apoio a organizações públicas e privadas em temas relacionados à informação contábil, governança, finanças, gestão e tomada de decisão.


Hélder Santos é professor de finanças e gestão tributária na FIPECAFI (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras).


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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