
Por Karen Miura
Sem identidade, não há futuro
O futuro não acontece por acaso — ele é construído por decisões tomadas com intenção.
Existe um erro silencioso que atravessa empresas consolidadas, negócios em crescimento e carreiras tecnicamente bem-sucedidas: a crença de que estratégia vem antes da identidade.
Na prática, ocorre o oposto.
Organizações que não sabem quem são acabam decidindo apenas o que fazer no curto prazo. Reagem a movimentos de mercado, copiam modelos bem-sucedidos, ajustam discursos, trocam prioridades — e chamam isso de adaptação. Mas adaptação sem identidade não é estratégia. É sobrevivência tática.
Identidade visionária não é branding. Não é propósito colado na parede. Não é narrativa inspiracional para tempos difíceis. Esqueçam os gurus de posicionamento aqui e de qualquer outra rede, eles não salvaram a sua empresa da obsolescência.
Identidade visionária é a clareza profunda sobre o tipo de futuro que se está disposto a sustentar, mesmo quando o caminho exige renúncias, escolhas impopulares ou crescimento mais lento no presente. E, me acompanhe e verás que lentidão nem combina comigo.
No livro Plano de Futuro: a arte de construir negócios visionários, sustento que identidade é o primeiro ativo estratégico real. Ela precede o planejamento, orienta a tomada de decisão e funciona como filtro em ambientes complexos. Onde há identidade, há coerência. Onde há coerência, há confiança. E confiança é o que sustenta valor no longo prazo.
A origem do erro estratégico
Historicamente, o pensamento estratégico corporativo foi construído sob uma lógica mecanicista: analisar o ambiente, definir metas, desenhar planos, executar. Essa sequência, herdada da administração clássica e da lógica industrial, pressupõe que a organização seja um sistema previsível, controlável e estável.
O problema é que essa lógica foi mantida mesmo quando o contexto deixou de ser previsível.
Ao colocar o planejamento antes da identidade, as empresas passaram a tratar estratégia como um exercício técnico — e não como uma escolha existencial. Planeja-se para crescer, competir, ganhar eficiência ou escala, sem antes definir que tipo de organização se pretende ser diante de dilemas reais: pressão por resultado, uso de tecnologia, decisões éticas, relação com pessoas, impacto no entorno.
Esse erro gera planos sofisticados, mas frágeis. Estratégias que funcionam apenas enquanto o ambiente coopera. Quando o contexto muda, o plano vira ruído — porque não há identidade que sustente decisões difíceis fora do script. E é aí que o time de Financial Planning pira…
Planejamento sem identidade cria organizações altamente reativas, dependentes de lideranças individuais e vulneráveis a ciclos de curto prazo. O futuro, nesses casos, não é construído. É enfrentado.
Identidade como ativo de governança
Quando identidade é tratada como ativo estratégico, ela deixa de ser um tema “intangível” e passa a ocupar o centro da governança.
Identidade é o que orienta decisões quando não há consenso. É o que sustenta escolhas quando os dados são insuficientes. É o que delimita até onde uma organização está disposta a ir — e onde ela para.
Conselhos maduros não governam apenas indicadores. Governam coerência. A identidade funciona como eixo invisível que conecta estratégia, sucessão, alocação de capital e gestão de risco. Sem esse eixo, decisões tornam-se oportunistas, desconectadas entre si e difíceis de sustentar no tempo.
Empresas sem identidade clara tendem a:
- trocar de direção estratégica a cada ciclo de liderança ou a cada crise,
- capturar capital sem clareza de uso futuro, por vezes pulverizando Cap table – capitalization table (vulgo quadro societário) *caberia um artigo aqui nessa newsletter apenas para tratar das implicações desse fator no equity (valor da sua empresa),
- confundir governança com controle,
- e fragilizar processos sucessórios.
Quando identidade está clara, ela se torna critério. Critério para investir ou não. Para crescer ou não. Para adquirir, vender, encerrar ou transformar.
Governança, nesse sentido, não é um sistema de vigilância. É uma arquitetura de intenção.
Identidade e ciclos de ruptura
É nos ciclos de ruptura que a identidade revela seu valor mais profundo.
Crises sistêmicas — econômicas, tecnológicas, reputacionais ou humanas — expõem rapidamente organizações que cresceram sem clareza de quem são. Nessas situações, planos deixam de servir, benchmarks perdem relevância e decisões precisam ser tomadas sob alta ambiguidade.
O que sustenta a organização não é o plano estratégico, mas a identidade internalizada.
Empresas com identidade visionária conseguem distinguir o que deve ser preservado do que precisa ser transformado. Elas não entram em pânico estratégico, nem se paralisam tentando prever o próximo movimento do mercado. Elas escolhem.
Identidade, nesses momentos, funciona como âncora e bússola ao mesmo tempo: mantém estabilidade suficiente para não colapsar e direção clara para atravessar o novo.
Sem identidade, a ruptura se transforma em trauma organizacional. Com identidade, ela se torna transição.
Identidade não limita. Ela liberta.
O mesmo vale para carreiras.
Profissionais altamente competentes, mas sem identidade estratégica, tornam-se reféns do mercado. Aceitam posições que não constroem narrativa, acumulam experiências desconectadas e, com o tempo, perdem clareza sobre o próprio valor.
Identidade visionária não restringe possibilidades. Ela liberta da dispersão.
Construir o futuro começa, portanto, com uma pergunta silenciosa — não ao mercado, mas à consciência estratégica:
Que tipo de organização, carreira ou impacto eu estou realmente construindo?
Sem essa resposta, qualquer plano é apenas um exercício técnico. Com ela, o futuro deixa de ser uma ameaça e passa a ser um território possível.
“Toda estratégia é, antes de tudo, uma declaração de identidade.” — por Karen Miura em Plano de Futuro: a arte de construir negócios visionários
Karen Miura atua como CFO (Chief Future and Financial Officer), CVO (Chief Visionary Officer) e Conselheira Consultiva de Startups para Futuro e Inovação. Lidera o Squad da reforma tributária da W-CFO.
Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.


