
Por Quality Tax

A fórmula custo mais margem mais tributo, usada há décadas para formar preços, deixa de valer com a reforma tributária. O alerta foi apresentado por Rafael Barreto e Claudine Torres, da Quality Tax, durante o 20º Fórum de Gestão Fiscal e Tributária, realizado em 3 e 4 de agosto.
Segundo os palestrantes, a nova conta passa a ser (custo menos crédito) mais custo de caixa mais margem. Uma variável que praticamente não existia antes entra na equação: o custo do capital de giro perdido com o fim do float e o descasamento entre o pagamento do tributo e a recuperação do crédito.
Claudine Torres, gerente tributária da Quality Tax, chamou atenção para o lado operacional dessa conta, ressaltando o efeito do chamado split payment sobre o capital de giro das empresas. Com o novo mecanismo, o fisco passa a receber sua parte no momento em que o cliente paga, e o float que hoje financia o prazo entre o recebimento e o recolhimento do tributo deixa de existir.
A dupla situou 2026 como a janela decisiva para revisar contratos e preços. Um contrato de 24 a 36 meses assinado agora atravessa todo o ano de 2027, quando o impacto da reforma já será efetivo, com a CBS e a extinção do PIS e da Cofins.
O regime pleno só chega em 2033, com IBS completa e alíquota combinada em torno de 26,5% (projeção do Congresso Nacional), depois de um período de transição, em que 2 sistemas tributários vão operar ao mesmo tempo.
Um dos exemplos apresentados trata de empresas de mão de obra intensiva, como consultorias, BPOs e empresas de engenharia e tecnologia optantes pelo Lucro Presumido. Hoje, a carga cumulativa desse tipo de operação é de 8,65%, somando PIS, Cofins e ISS.
Com o redutor de 30% previsto para profissões regulamentadas, essa carga sobe para 18,55%. Sem o benefício, vai a 26,5% (podendo chegar a 29%). Como salário não gera crédito, o aumento afeta em cheio empresas cujo custo é majoritariamente folha de pagamento, ao contrário de setores com maior densidade de insumos creditáveis, em que o efeito do crédito recuperável tende a compensar o efeito nominal da alíquota mais alta.

Os palestrantes também trataram da decisão de repassar ou não ao preço o ganho obtido com o crédito ampliado. Não existe tabelamento do IVA no Brasil, o que torna essa decisão gerencial, e não uma obrigação.
A avaliação apresentada é que o resultado de uma reprecificação malfeita aparece direto no EBITDA. A receita líquida cai porque o tributo passa a ser destacado por fora. O custo das mercadorias vendidas e as despesas operacionais também caem, porque o tributo recuperável sai da conta de custo. Mas o impacto do split payment sobre o caixa não aparece no EBITDA, o que pode mascarar um problema de liquidez mesmo com resultado operacional estável.
No dia seguinte, a discussão passou da precificação para a base de dados que sustenta essas decisões. Na palestra sobre governança tributária orientada por dados, Fernando Moura, sócio-diretor da Quality Tax, e Ramon Muradas, sócio e CTO da CorpServices, argumentaram que o problema das áreas fiscais não é falta de informação, e sim falta de confiança nos dados disponíveis.
Eles listaram 4 pontos em que a governança costuma falhar na prática:
- dados dispersos e inconsistentes
- dependência excessiva de planilhas
- riscos que só aparecem no fechamento contábil; e
- e baixa visibilidade para CFOs e diretoria.
Como resposta, propuseram um modelo de 5 etapas para cada decisão tributária relevante: identificar a origem do dado, quem faz sua integração, quem valida, o contexto de atualização e quem efetivamente o utiliza.

A dupla apresentou 2 casos de uso de inteligência artificial dentro da própria operação. Um chatbot interno, batizado CorpLab, ajuda equipes dos projetos de reforma tributária a localizar e interpretar informações em um ambiente regulatório complexo, com respostas baseadas em fontes oficiais pré-selecionadas e validação profissional obrigatória antes do uso.
“De forma que eles não percam tanto tempo na busca de informações atualizadas e fidedignas, a gente colocou o chatbot que acompanha toda essa validação. Por isso tem muito espaço na parte de IA, mas o ser humano é essencial”, explicou Fernando Moura.
Outro sistema monitora continuamente publicações regulatórias, organiza o que é relevante e depende de curadoria humana antes de atualizar a base de conhecimento da empresa, modelo que os palestrantes chamaram de “human in the loop”.
“O ser humano no centro do processo. Existe uma grande confusão, é tudo muito novo na IA, mas até onde a tecnologia vai e até onde o ser humano deve estar no comando dos processos”, resumiu Moura.
Segundo ele, a tecnologia tem sido usada para localizar, comparar e classificar informação, liberando os profissionais para as questões que exigem análise e responsabilidade sobre a divulgação dos dados. Na plateia, ficou a pergunta lançada durante a palestra: se a planilha mais usada pela área desaparecesse amanhã, a governança sobreviveria ou desapareceria com ela?
Ao fim do fórum, Fernando Moura resumiu o que considera a principal tarefa das empresas diante da reforma: “A mensagem principal é ter um cuidado com a margem, capturar todas essas alterações que a reforma tributária está trazendo.”
“A gente tem as discussões do crédito amplo, tem as discussões da formação de preço na ponta, e todo esse sistema tem que estar se falando, muito bem coordenado, para que a sua margem não seja afetada”, completou.
Segundo ele, depois desse trabalho interno vem a negociação com clientes e fornecedores sobre repassar ou não a melhora de preço, uma engenharia que começa na área de compras e termina no fiscal e no financeiro, passando por toda a companhia.
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