A reforma tributária começou na lei, mas, na prática, ela acontece no seu ERP

Foto via Freepik

Por Rodrigo Sartorio

Nos últimos meses, o debate sobre a reforma tributária tem ocupado as manchetes e as mesas de reunião em todo o país. Muitas das discussões se concentram em alíquotas, regras de transição e nos complexos acordos políticos no país, o que, sem dúvida, é importante. Mas existe uma verdade silenciosa e muito crítica que muitas empresas ainda não se deram conta: na prática, a Reforma não vai acontecer somente no Diário Oficial, ela vai acontecer principalmente dentro da sua empresa, por meio do seu ERP.

Claro que alíquotas são um grande risco, mas o risco para o seu negócio, que está sob seu controle, é a capacidade da sua operação de continuar funcionando com eficiência e sem intercorrências. A partir de Agosto/2026, uma nota fiscal emitida sem as novas informações da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) será rejeitada, impactando vender e entregar.

Muitos gestores ainda acreditam que basta uma simples atualização de software enviada pelo seu fornecedor de tecnologia, e esse é um erro perigoso. A reforma exige muito mais do que novos campos de impostos no sistema; ela demanda uma transformação profunda em processos que são a espinha dorsal de qualquer negócio. Estamos falando de adaptações em cadastros (como a chegada do CNPJ alfanumérico), alteração da lógica de cálculo dos tributos (o chamado “cálculo por fora”), gestão de documentos fiscais e processos de apuração, entre outras novidades.

O desafio é complexo, mas o caminho para atravessá-lo com segurança passa por uma jornada tecnológica estruturada. É urgente tirar o tema da esfera puramente fiscal e trazê-lo para o centro da estratégia tecnológica da empresa. Essa jornada pode ser dividida em quatro etapas essenciais que toda empresa, independentemente do porte ou do setor, precisa iniciar.

1.   Conscientização e simulação: onde estou e para onde vou?

Antes de mexer em uma linha de código, o primeiro passo é estratégico. Sua empresa precisa de ferramentas que permitam simular cenários, comparando a carga tributária atual com a futura. Qual será o impacto no seu fluxo de caixa? E na sua precificação? Operações que hoje são vantajosas, por benefícios fiscais, por exemplo, continuarão sendo? Ter essa visibilidade é fundamental para planejar preços, margens e até mesmo a localização de futuras operações, transformando um desafio obrigatório em uma decisão estratégica.

2. Configuração do ERP: o coração da operação

A transição para o novo sistema tributário poderá durar muitos anos. Isso significa quase uma década de convivência entre impostos antigos e novos. Para navegar por essa complexidade, seu ERP precisará de um motor de cálculo flexível e configurável. Por isso, a empresa precisa ter autonomia para parametrizar as novas regras, suas exceções e vigências, sem depender de customizações lentas e caras. É essa flexibilidade que garantirá a agilidade para se adaptar às constantes mudanças que virão.

3. Gestão de documentos fiscais eletrônicos: o protagonista da reforma

O documento fiscal eletrônico é a peça central de todo o novo modelo. Ele é a base para a apuração, para a recuperação de créditos e para o funcionamento de mecanismos futuros como o split payment. Com a Reforma, o volume de documentos vai explodir, já que a meta do governo é que nenhuma operação, por menor que seja, ocorra sem um documento fiscal eletrônico. Sua tecnologia precisa estar pronta não apenas para emitir, mas para receber, validar e armazenar esse volume massivo de dados com total conformidade. Além do volume de documentos novas ações relacionadas a eles, como os eventos eletrônicos, aumentarão ainda mais a importância deste tema.

4. Apuração e conformidade: segurança e transparência

Por fim, os cálculos e emissões são a base da apuração pré-assistida anunciada pelo fisco. Por isso, ter dados consistentes para conciliação de dados é primordial. A consolidação da CBS e do IBS exigirá sistemas que ofereçam um processo de apuração configurável e transparente. A tecnologia é quem vai ajudar a gerar as novas obrigações acessórias de forma automatizada e segura, garantindo a conformidade e mitigando riscos de autuações.

O relógio está correndo, e a preparação tecnológica para a reforma é um projeto complexo e, ainda, sem um prazo concreto para acabar. A pergunta que todo líder deveria se fazer hoje não é “se” sua empresa precisará de tecnologia para se adaptar, mas “quando” ela irá começar a implementar essa jornada.

E para a reforma tributária, o “quando” é agora.


Rodrigo Sartorio é diretor-executivo de produtos da TOTVS.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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