O novo IVA e a corrida pela eficiência operacional: quem vai se adaptar primeiro?

Iva dual
Ilustração: ChatGPT/OpenAI

Por Diogo Thaler do Valle

Quando falamos em Reforma Tributária no Brasil, não estamos diante de mais uma alteração legislativa de impacto restrito à contabilidade ou ao cumprimento de obrigações acessórias. Trata-se, na verdade, de uma reconfiguração estrutural que redefine a relação entre o Estado e a atividade econômica. A introdução do IVA, materializada pela CBS e pelo IBS, representa um passo relevante em direção à racionalidade fiscal, mas também inaugura uma etapa muito mais exigente do ponto de vista estratégico.

Não é exagero afirmar que estamos às portas de uma transformação com impacto comparável ao Plano Real ou à implantação do SPED. A diferença é que, agora, o desafio não é apenas operacional. Ele é sistêmico, transversal e profundamente estratégico.

Durante décadas, convivemos com um sistema fragmentado, cumulativo, marcado por conflitos de competência, guerras fiscais e exceções que se tornaram regra. Um modelo que penalizou quem buscou eficiência, encareceu a conformidade e corroeu a previsibilidade necessária ao planejamento de longo prazo. O custo desse arranjo nunca foi apenas financeiro. Ele limitou a competitividade das empresas brasileiras, especialmente na inserção em cadeias globais, e impôs um teto invisível à capacidade de crescimento sustentável.

Nesse contexto, a promessa de um sistema baseado em neutralidade, transparência e não cumulatividade surge como um possível divisor de águas. Mas é preciso realismo. Nenhuma arquitetura institucional, por si só, transforma a realidade. O que efetivamente muda o jogo é a forma como empresas e profissionais escolhem reagir a ela. A reforma cria o ambiente. A vantagem competitiva nasce da ação.

É justamente aqui que a eficiência operacional deixa de ser um conceito abstrato e passa a ocupar o centro da estratégia. A implementação do IVA exigirá uma mudança

cultural profunda. Não se trata de migrar de regime como quem atualiza um cadastro, mas de repensar processos, fluxos, formação de preços, desenho de margens, integração de dados e uso inteligente da tecnologia. Essa transformação atravessa a organização inteira, da logística ao comercial, do jurídico à controladoria, da área fiscal à alta gestão. Trata-se de uma agenda transversal, que exige liderança, visão sistêmica e capacidade real de antecipação.

A diferença entre quem vai apenas se adaptar e quem vai liderar começa exatamente nesse ponto. Empresas que enxergarem a reforma como um evento burocrático inevitável tendem a reagir tarde e de forma defensiva. Já aquelas que compreendem sua dimensão estratégica e se antecipam de maneira estruturada têm a chance de capturar ganhos reais de eficiência, reduzir fricções internas e reposicionar seu modelo operacional. Essa oportunidade não é exclusiva de grandes grupos. Ela está igualmente disponível para médias e pequenas empresas. O que muda é a velocidade e a qualidade da resposta.

Antecipar, nesse contexto, não significa apenas revisar alíquotas ou reclassificar operações. Significa redesenhar processos, integrar áreas que historicamente operaram em silos, construir bases de dados confiáveis, investir em automação fiscal e, sobretudo, redefinir o papel da área tributária dentro da organização. Este é um momento decisivo para tributaristas e contadores que desejam deixar a função meramente operacional e assumir posição estratégica nas decisões de negócio.

A atuação tributária deixa de ser reativa. Passa a influenciar investimentos, desenho de produtos, estratégias de expansão, eficiência logística e estruturação de cadeias de valor. Quem dominar não apenas o texto da lei, mas seus efeitos concretos sobre a operação, será cada vez mais demandado, ouvido e valorizado. A reforma, nesse sentido, funciona como um catalisador de reposicionamento profissional.

É natural que esse processo gere desconforto. Toda ruptura exige abandono de práticas antigas e disposição para aprender continuamente. Modelos que funcionaram por anos podem simplesmente perder sentido. A lógica baseada em improviso, correção de última hora e dependência excessiva da burocracia tende a ceder espaço a uma

atuação orientada por dados, integração sistêmica e inteligência fiscal aplicada. Isso muda a relação com sistemas, redefine prioridades e altera o perfil de profissionais que as empresas passam a buscar.

Atualizar o ERP ou fazer um curso pontual sobre CBS e IBS está longe de ser suficiente. O momento exige um diagnóstico profundo das operações, identificação de gargalos, revisão de processos, automação de controles e digitalização inteligente dos fluxos de informação. A gestão tributária deixa de ser apenas centro de custo e passa a ser ativo estratégico, diretamente conectado à eficiência operacional e à tomada de decisão.

A transição para o novo modelo será gradual, com convivência entre sistemas e ajustes progressivos. Mas essa transição não deve servir de álibi para a inércia. Pelo contrário. É justamente esse período que oferece a melhor oportunidade para testar, ajustar e corrigir com menor risco. Quem age agora constrói vantagem silenciosa. Quem espera a obrigatoriedade abre mão de um privilégio estratégico raro.

A pergunta relevante, portanto, não é quando a nova regra será plenamente exigida, mas o que pode ser feito desde já para sair na frente. Essa é uma questão de liderança. Ela precisa estar presente não apenas nas áreas fiscal e contábil, mas nas mesas da alta gestão, nos conselhos e nos fóruns de decisão estratégica.

A Reforma Tributária, embora tenha origem no campo da arrecadação, atua como engrenagem central no redesenho dos modelos de negócio. Afeta preços, margens, cadeias de suprimento, localização de operações e estratégias de crescimento. Ignorar essa dimensão é subestimar seu alcance. A mudança é estrutural e estratégica.

Quando a fase de transição se encerrar, o novo IVA funcionará como um divisor claro entre quem reagiu e quem liderou. Mais do que separar empresas, ele evidenciará a diferença entre profissionais que se reinventaram e aqueles que permaneceram presos a modelos superados. A área tributária tende a emergir desse processo com um novo status, desde que esteja preparada para isso.

O tributarista deixa de ser visto como mero executor de normas e passa a ocupar o papel de conselheiro estratégico, capaz de antecipar riscos, identificar oportunidades e transformar obrigações em ganhos de eficiência. Trata-se de uma oportunidade rara. Talvez única. A chance de elevar a atuação técnica ao nível da inteligência estratégica e de influenciar, de fato, o futuro das organizações.

Quem conseguir traduzir essa transformação em eficiência operacional, agilidade decisória e integração real entre áreas não apenas atravessará a reforma. Vai liderar o novo cenário que se forma. E, no jogo da transformação estrutural, agir antes, com método e visão, continua sendo a diferença decisiva.


Diogo Thaler do Valle é CEO do PowerTaxBrasil.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.


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