Adaptação de sistemas à reforma enfrenta escassez de consultores e salto no volume de dados, alertam especialistas

Foto: Reprodução via Estúdio Tramma

Por Enzo Bernardes, de Brasília

A urgência e a complexidade da adaptação dos ERPs (sistemas de gestão empresarial) diante da reforma tributária dominaram os debates do evento promovido pela Indra Group, realizado em 2 de julho, no Novotel Morumbi, em São Paulo. O Portal da Reforma Tributária participou do encontro como apoio de mídia.

Especialistas alertaram que as empresas precisam acelerar os projetos de atualização dos sistemas para atender às novas exigências fiscais. Representante do sistema de ERP SAP, Bruno Ogusuko afirmou que o suporte ao SAP ECC (ERP Central Component) será descontinuado ao fim de 2027, justamente no meio da transição da reforma tributária.

Segundo ele, as empresas precisam iniciar desde já a modernização dos sistemas, já que uma nova versão do regulamento do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) será publicada nos próximos meses e poderá exigir ajustes adicionais nos ERPs.

O executivo reforçou que a reforma vai muito além das mudanças tributárias e exigirá adaptações em diferentes áreas das empresas: “Está muito claro para todo mundo que não é só uma reforma fiscal. É financeira, mexe em compras, vendas, TI [Tecnologia da Informação] e etc. Mexe na empresa inteira“.

Ele ressaltou que as empresas que ainda utilizam o SAP ECC ou versões mais antigas da plataforma precisam acelerar o processo de migração para garantir acesso às funcionalidades necessárias para atender ao novo modelo tributário. Também destacou que será necessário manter os sistemas constantemente atualizados para acompanhar as mudanças regulatórias previstas durante a implementação da reforma.

DIAGNÓSTICO

Henrique Oliveira Muniz, head of enterprise applications practice (líder de aplicações) da multinacional de consultoria Indra Group, afirmou que o 1º passo para as empresas é realizar um diagnóstico do ambiente SAP para identificar o nível de adequação necessário. Segundo ele, esse trabalho permite avaliar desde a necessidade de aplicação de notas técnicas até projetos mais complexos de atualização do ERP e revisão de processos.

Nós fazemos um diagnóstico rápido de 1 a 2 semanas, dependendo do ecossistema e do ambiente do cliente, para verificar o que precisa ser feito“, disse. Ele afirmou que a duração dos projetos varia conforme o nível de atualização do ambiente e o grau de customização dos sistemas. Em alguns casos, a implementação pode levar apenas algumas semanas. Em outros, vários meses.

Muniz também explicou que empresas que ainda utilizam versões antigas terão uma janela reduzida para implementar todas as mudanças exigidas pela reforma.

O executivo também alertou para um desafio que pode dificultar ainda mais esse processo: a falta de profissionais especializados para atender à demanda crescente por projetos de adequação dos ERPs.

Ao comentar o estágio de preparação das empresas, declarou: “Os sistemas do governo já estão prontos, embora estejam passando por atualizações toda semana, a cada 15 dias. Muda isso aqui, muda aquilo ali. Muita coisa já está pronta há muito tempo. Quem está realmente atrasado somos nós, as empresas“.

DESAFIO

O CEO da empresa de inteligência tributária ROIT, Lucas Ribeiro, destacou que a adaptação dos sistemas é apenas parte do desafio. Para ele, a reforma exigirá mudanças profundas nos processos internos das empresas.

Mudanças operacionais envolvem processos, envolvem cultura. Nós temos que repensar isso dentro das organizações […] Isso não é brincadeira, não é simples de ser feito. Isso não é só tecnologia, tem um envolvimento muito grande de processos, procedimentos, alinhamento com fornecedor e cliente“.

A complexidade da adaptação se prova pela ampliação significativa do volume de documentos fiscais processados. O número esperado é de 70 bilhões de DFes (Documentos Fiscais Eletrônicos) por ano, segundo a Receita Federal.

Ribeiro afirmou que esse cenário exigirá preparação dos sistemas e revisão das rotinas operacionais das empresas. “A área de recebimento fiscal de vocês está preparada para receber 70 vezes mais documentos?“, questionou.

Para Ribeiro, a adaptação à reforma tributária depende de uma atuação conjunta entre empresas, fornecedores de tecnologia e parceiros especializados.

Douglas Rodrigues, editor-chefe do Portal, relatou que os Fiscos federais, estaduais e municipais seguem avançando na criação de normativas e sistemas para apurar os novos tributos. “Mesmo com o cenário eleitoral, a base jurídica da reforma já foi aprovada e é de difícil alteração”, relatou ele no evento.

Veja abaixo uma galeria de fotos do evento:

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