Cachaça, o Brasil na garrafa

Foto: Marcello Casal Jr via Agência Brasil

Por Vicente Bastos

Poucos produtos conseguem traduzir tão bem a história e a cultura de um país quanto a Cachaça traduz a do Brasil. Considerada o primeiro destilado das Américas e a primeira Indicação Geográfica do Brasil, sua trajetória acompanha a do próprio país há mais de cinco séculos. Está presente na gastronomia, na música, na literatura, no turismo e nas tradições que atravessam gerações. Costumo dizer que a Cachaça é o Brasil na garrafa. Trata-se de um patrimônio genuinamente brasileiro, reconhecido dentro e fora do país, mas que, paradoxalmente, enfrenta enormes dificuldades para ocupar o espaço compatível com sua importância em seu próprio mercado

O Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, reforça esse contraste. Os números revelam uma cadeia produtiva dinâmica e resiliente. Em 2025, o Brasil alcançou 1.538 estabelecimentos registrados, um crescimento de 21,5% em relação ao ano anterior. Desde 2018, esse número aumentou 61,7%. Poucos segmentos conseguem apresentar um ritmo de crescimento dessa magnitude em um ambiente regulatório tão desafiador.

Outro dado: 844 municípios possuem ao menos um estabelecimento registrado, crescimento de 14,8% em apenas um ano. Essa talvez seja uma das maiores riquezas do setor. Isso porque a Cachaça não está concentrada em poucos polos produtivos; está distribuída pelo território nacional, gerando renda, mantendo famílias no campo e impulsionando economias locais. Em sua maioria, são micro e pequenos produtores que transformam um produto feito com matéria-prima 100% nacional em vetor de desenvolvimento regional.

O desempenho internacional também demonstra um caminho promissor. Em 2025, as exportações cresceram 19,4%, alcançando 7,96 milhões de litros, com embarques para 76 países. Mesmo sendo números pouco expressivos diante do gigante mercado mundial de destilados, são sinais claros de que a Cachaça desperta interesse no mercado externo. 

Chamo atenção para esse ponto: se a Cachaça cresce, gera emprego, movimenta centenas de municípios e amplia sua presença internacional, por que ainda enfrenta uma das maiores cargas tributárias do segmento de bebidas alcoólicas no próprio país?

Pouca gente sabe, mas a Cachaça é um dos produtos mais tributados do Brasil. E há um paradoxo: considerando apenas as alíquotas nominais de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), o setor suporta uma carga cerca de 4 vezes superior a outras categorias de bebidas alcoólicas.

Não se trata de defender privilégios para um produto brasileiro, nem de penalizar qualquer outra bebida. Trata-se de questionar uma distorção que desafia a lógica e defender um princípio elementar de justiça tributária.  Se o que se pretende tributar é o álcool, por que bebidas que entregam a mesma quantidade de etanol ao organismo continuam sendo tratadas de forma diferente?

É justamente esse o ponto que passa despercebido. Se usarmos como referência uma dose padrão de consumo, uma lata de cerveja, uma taça de vinho e uma dose de Cachaça contêm praticamente a mesma quantidade de álcool: cerca de 14 gramas de álcool. Em outras palavras, o organismo metaboliza a mesma quantidade de etanol. O que muda é apenas o volume da bebida servido no copo. Por isso, a discussão não deveria estar centrada no tipo de bebida, mas na quantidade de álcool efetivamente consumida. 

É esse princípio que fundamenta a defesa da isonomia tributária: tratar de forma equivalente situações equivalentes.  Ao defender a isonomia tributária, a Cachaça pede coerência. Pede que um patrimônio nacional seja submetido às mesmas regras aplicáveis às demais bebidas alcoólicas, para que possa competir em igualdade em seu próprio mercado. O aumento e a manutenção dessas assimetrias podem comprometer a sobrevivência de milhares de produtores, estimular a informalidade e reduzir empregos.

Existe um simbolismo importante nesse debate. O Brasil costuma celebrar a Cachaça como expressão de sua identidade.  Resta saber se o país continuará impondo barreiras ao seu próprio símbolo ou se reconhecerá, também nas políticas públicas, que valorizar a única bebida genuinamente brasileira é valorizar a própria história.


Vicente Bastos é o presidente do Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça), entidade representativa do setor.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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