
Por Nicholas Meira
Era uma vez um profissional que era a maior referência técnica de toda a empresa. Não existia pergunta difícil demais para ele e a resposta sempre estava na ponta da língua. Um dia o Gestor da empresa o chamou e disse que a partir daquele momento ele lideraria o time, e ele aceitou na hora, porque pareceu o próximo passo óbvio de uma carreira de sucesso.
Três anos depois, ele não é mais o melhor técnico da sala, e também nunca virou o gestor que o time e a empresa precisavam. Ele não escolheu um caminho, só aceitou o que apareceu primeiro e parecia ser caminho óbvio, e essa história se repete em praticamente toda empresa e todo departamento tributário que eu conheço. E ela não é sobre incompetência, é sobre uma escolha que a gente evita fazer.
Esta certamente seria a minha história, se lá atrás, antes de ser convidado a assumir uma posição de gestor na empresa em que atuava, meu gestor não tivesse me preparado para assumir essa posição frente ao time que lideraria em breve. Fui preparado e principalmente me preparei (com cursos, treinamentos e literaturas) para assumir a posição com as competências necessárias, ou pelo menos, com uma boa noção delas, pois gestão se aprende de fato na prática.
A carreira tributária tem dois caminhos reais. O do especialista, que vira a maior referência técnica em um determinado assunto ou matéria, o profissional que o mercado procura quando a pergunta é difícil demais pros outros. E o do gestor, que troca profundidade técnica por visão de negócio, larga a régua de calcular pra pegar a régua de decidir e focar na estratégia. Os dois caminhos são bons, e os dois têm armadilha.
Quem escolhe ser especialista corre o risco de cavar tão fundo e se especializar tanto em um assunto ou matéria que pode ser que ninguém mais o enxergue lá de cima, porque ser insubstituível tecnicamente não garante lugar perpétuo na cadeira. Quem escolhe ser gestor sem lastro técnico corre o risco de virar um tradutor de notícias e informações sem vocabulário completo, sobe rápido demais e passa a comandar gente que sabe mais do que ele (o que não é necessariamente ruim). O problema não é escolher errado. É não escolher e deixar que a empresa escolha a sua careira por você.
Em uma das minhas passagens corporativas, uma multinacional gigantesca, tínhamos um gestor que não dominava a parte tributária, mas que sabia gerir pessoas como ninguém e dominava o conhecimento do negócio como poucos naquela empresa. Ciente da sua limitação técnica na área tributária, se cercava de excelentes profissionais para tocar o dia a dia, sendo a sua participação apenas gerencial na condução do negócio.
Isso tinha um lado positivo, pois a área ganhava relevância com as áreas de negócios e comerciais da companhia. Por outro lado, o time se sentia inseguro por não ter uma liderança que dominava a técnica tributária, ou seja, não tínhamos uma crítica de nossas entregas e relatórios preparados e por vezes o time sentia que não tinha o suporte necessário da gestão.
Com a reforma tributária em andamento e a inteligência artificial assumindo cada vez mais tarefas operacionais, o meio do caminho está encolhendo rápido. Ou você vira a referência rara, dominando não apenas o técnico, como também as ferramentas, ou vira quem decide. Ficar em cima do muro virou a posição mais arriscada da profissão.
Antes de aceitar o próximo convite para a sua jornada, três perguntas ajudam mais do que qualquer plano de carreira pronto. A primeira é sobre energia, o que te dá prazer de verdade no trabalho, ir fundo em um problema ou dar direção pra várias frentes ao mesmo tempo? A segunda é sobre mercado, o que a empresa, hoje, paga mais caro: o especialista que ela não tem ou o gestor que ela precisa? E a terceira é sobre momento. O que a sua fase de vida comporta agora, não onde você imagina estar daqui a cinco anos? Nenhuma dessas perguntas tem resposta certa, mas todas elas têm uma resposta sua.
A escolha, porém, não é definitiva, dá pra trocar de cadeira mais de uma vez na sua jornada profissional. O que não dá é pra ficar de pé no corredor esperando alguém escolher por você e definir a sua trajetória.
E para fazer esta escolha, deixo aqui 3 reflexões que julgo muito importantes você fazer:
- O que você QUER para a sua carreira.
- O que você NÃO QUER para a sua carreira.
- O que você ACEITA PASSAR por um tempo para atingir seus objetivos profissionais.
Dito isso, vamos juntos nessa jornada!
Nicholas Meira é tributarista com mais de 20 anos de experiência na área, atuando em multinacionis líderes globais de seus segmentos. Presidente na Comunidade Power Tax Brasil, uma comunidade tributária com mais 200 tributaristas, que representam mais de 120 empresas de diversos segmentos de mercado.
Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.








