Por Douglas Rodrigues e Enzo Bernardes, de São Paulo e Brasília
A reforma tributária já está na fase de transição. Para profissionais do sistema de gestão empresarial, empresas que deixarem para se adaptar apenas quando as novas regras entrarem plenamente em vigor correm risco de comprometer o caixa e até a própria continuidade dos negócios.
O alerta foi feito pelo gerente de estudos econômicos da Omie, Felipe Beraldi, e pela sócia da Person Consultoria Contábil, Adriana Matos, durante o podcast Tax Capital, do Portal da Reforma Tributária.
Por mais que grande parte dos empresários ainda concentre a atenção na possibilidade de aumento ou redução da carga tributária, os especialistas afirmam que os principais impactos da reforma estarão na gestão financeira das empresas.
Eles dizem que questões como formação de preços, utilização de créditos tributários, negociação com fornecedores, revisão de contratos e estruturação de dados passarão a influenciar diretamente a competitividade dos negócios.
“Quem entrar nesse processo de descobrir que tem um problema de caixa depois que ele acontece, ao custo de crédito que a gente tem hoje, o tamanho do buraco é enorme. Muitas empresas que não estiverem preparadas vão ter um problema de sobrevivência efetivamente“, afirmou Beraldi.
Segundo o economista, o período de transição previsto na reforma foi criado justamente para que as empresas façam os ajustes necessários antes da mudança definitiva do sistema tributário.
No entanto, pesquisa realizada pela Omie indica que metade dos empresários ainda não iniciou qualquer preparação ou permanece apenas buscando informações sobre o tema. O levantamento também mostra que menos de 1/3 das empresas já revisa processos internos, cadeias de fornecedores ou estratégias de precificação.
Os dados foram compartilhados durante a entrevista ao Tax Capital. Para Adriana Matos, essa demora decorre, principalmente, da percepção de que a reforma é um assunto restrito à área fiscal.
“Ainda existe a parcela dos empresários que continua bastante cética e outra parcela que enxerga a reforma tributária como imposto e, por tratar-se de tributo, entende que o problema é do contador“, afirmou.
Na avaliação da contadora, esse entendimento ignora que a nova tributação afetará praticamente todas as decisões estratégicas das empresas.
“Ninguém muda um negócio, a cultura de um negócio e implementa a gestão da noite para o dia“, disse.
SIMPLES NACIONAL
Um dos principais alertas feitos durante o podcast foi direcionado às empresas optantes pelo Simples Nacional. Apesar de muitos empresários acreditarem que permanecerão praticamente inalterados com a reforma, Adriana afirmou que justamente essas companhias precisarão avaliar seu posicionamento na cadeia de fornecedores.
Ela explicou que empresas que vendem para outras poderão perder competitividade caso não consigam transferir créditos tributários aos clientes. “Talvez ela deixe de ser uma opção para esse cliente“, afirmou ao comentar o caso de prestadores de serviço enquadrados no Simples Nacional.
Segundo Beraldi, a escolha entre permanecer no Simples tradicional ou optar pelo modelo híbrido exigirá análise individualizada da operação de cada empresa. A decisão dependerá, entre outros fatores, do perfil dos clientes, da capacidade de gerar créditos tributários, da estrutura de compras e da estratégia de precificação.
FLUXO DE CAIXA
Para os especialistas, o maior impacto da reforma não estará necessariamente na alíquota final paga pelas empresas, mas na administração do fluxo de caixa. Beraldi afirmou que muitos empresários continuam discutindo apenas carga tributária, enquanto deixam de lado mudanças que afetarão diretamente o capital de giro.
“O impacto da reforma vai muito além do aumento de carga tributária. Ele vai no impacto de fluxo de caixa, disponibilidade de capital de giro“, disse.
Segundo ele, empresas que identificarem problemas financeiros apenas depois da implementação das novas regras enfrentarão custos elevados para buscar crédito em um cenário de juros altos.
TECNOLOGIA
Os participantes também defenderam que sistemas de gestão deixam de representar apenas ganho de produtividade para se tornarem ferramentas essenciais durante a transição. Para Beraldi, empresas precisarão estruturar dados sobre clientes, fornecedores, compras e vendas para conseguir simular cenários e tomar decisões tributárias.
“Excel nada mais é do que um papel na folha do computador. Excel não é sistema. Então, as empresas vão precisar de sistema, de procedimento, de ferramentas que auxiliem na gestão”, disse.
Ele afirmou que tecnologias como ERPs (Planejamento de Recursos Empresariais, em português) serão fundamentais tanto para garantir conformidade fiscal quanto para permitir análises de fluxo de caixa, precificação e aproveitamento de créditos.
“As empresas que não tiverem um sistema de gestão, e mais do que isso, um sistema de gestão preparado para toda essa fase de transição, para esse novo modelo, efetivamente não vão sobreviver”, declarou.





