Investindo no Brasil: Profissionais de empresas chinesas estão de olho nas reformas e preços de transferência

Por Bravo

A Bravo e o escritório Souto Correa Advogados promoveram em 14 de abril o “China-Brazil Business Roundtable”, encontro voltado exclusivamente a profissionais da área tributária em empresas com capital chinês no Brasil. O evento reuniu líderes de grupos como 99, Realme e Alipay em formato de mesa redonda, com tradução simultânea.

A proposta partiu da percepção de que esses profissionais enfrentam desafios distintos dos demais grupos tributários. Giácomo Paro, sócio e CEO do Souto Correa, explicou que a ideia não era gerar conteúdo, mas criar espaço de troca. “A ideia era a gente ter aqui um espaço para que todos vocês, entre vocês, trouxessem os temas”, disse ele na abertura.

Rodrigo Reis, diretor tributário da 99, reforçou o objetivo. Para ele, o foro era necessário porque as empresas presentes representavam uma fatia relevante da economia brasileira e mereciam um ambiente próprio de debate.

Marcos Gimenez, CEO da Bravo, contou que a iniciativa partiu de uma constatação interna. Segundo ele, ao longo da trajetória da empresa no atendimento a grupos chineses, a Bravo nunca tinha investido em propaganda ou marketing voltado para esse público. “O que a gente conquistou até aqui foi construído através da base da confiança dos nossos clientes”, afirmou. 

PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA

O primeiro painel foi conduzido por Lauren Gomes Rodrigues, tax manager da Realme no Brasil. Ela descreveu a estratégia adotada pelo time local para apresentar o ambiente tributário brasileiro ao headquarters chinês, tarefa que, segundo ela, vai além do domínio técnico.

A primeira medida foi produzir material explicativo para a matriz. “A primeira premissa que nós trouxemos de explicação foi que, embora o Brasil esteja agora na OCDE em termos de legislação para preços de transferência, o Brasil também tem certas peculiaridades que precisam ser atendidas”, relatou Lauren. O material funcionou. “O time gostou bastante, trouxe para nós uma série de outras perguntas mais profundas, que aí entrava realmente na complexidade do que a gente chama de análise funcional”.

Para ela, no entanto, o ponto central não era técnico. “O que é de ponto em comum de tudo isso é justamente a necessidade de estabelecer um elo de confiança com o time da matriz para que aí então as discussões começassem a desenvolver”.

Ela também alertou que a capacitação das autoridades fiscais brasileiras avançou e as empresas precisam estar preparadas. “Nós iremos enfrentar autuações mais rápidas por conta das automações, mas autuações talvez mais sofisticadas do que a gente espera, justamente porque o preparo não está vindo só do nosso lado, o preparo também está do lado das autoridades”.

SISTEMAS

O segundo painel abordou os impactos da reforma tributária sobre processos e tecnologia. Rodrigo Reis descreveu como o time tributário da 99 se consolidou como área de negócio dentro da empresa. “Eu tenho me vendido como profissional de negócio, com conhecimento em tax, me vejo assim. Quando eu participo desde o início das tomadas de decisões, a gente consegue entregar muito mais valor”, disse.

Soraya, do time tributário da 99, apontou a mudança de mentalidade como o principal obstáculo na adaptação. “A reforma não é uma mudança de regra, é uma mudança de lógica”, afirmou. Ela também observou que o tempo de experiência, que antes separava profissionais sênior dos mais jovens, deixaria de ser um diferencial. “Daqui de hoje para daqui a três anos, estamos todo mundo com o mesmo tempo de experiência da reforma”.

Hugo, diretor executivo de tecnologia da Bravo e responsável pelo atendimento às empresas chinesas, relatou um episódio que ilustrou a dificuldade de comunicar a realidade regulatória brasileira para as matrizes. Segundo ele, após meses de preparação para a entrada em vigor do novo layout de nota fiscal, São Paulo mudou as regras faltando 15 dias para a implementação. “Como é que você explica para uma pessoa na China que o governo da maior cidade do país decidiu, faltando 15 dias para entrar em produção, modificar a regra?”, questionou.

Para Hugo, o maior problema naquele momento não era técnico. “A nossa maior dificuldade nesse momento com a China era explicar qual era a confiança que eles tinham nas nossas regras, na nossa comunicação com o fisco. A falta de previsibilidade, a falta de visibilidade era a maior dificuldade que a gente tinha”.

Um executivo sênior de uma empresa multinacional com presença no Brasil apontou que o diferencial dos prestadores de serviço não estaria no software. O diferencial não vai ser ter uma ferramenta boa. Vai ser aquela pessoa que está ajudando você implementar a estratégia da companhia, relatou.

Marcelo Brasil, conselheiro da Bravo com carreira como diretor global de tax na BBC em Londres, trouxe uma perspectiva sobre o modelo de BPO e sua relação com a cultura tributária chinesa. “BPO não é uma opção. BPO é uma necessidade, porque a partir da junção dessa cultura de previsibilidade, dessa cultura de benchmarking, a gente consegue trazer a previsibilidade. Que é tudo que os operadores do direito tributário internacional mais querem e pouco conseguem no Brasil”.

Marcelo também relacionou o sucesso dos Advance Pricing Agreements na China a uma característica cultural. “Por que os APAs dão tão certo na China? Porque os chineses aprendem na escola a se relacionar. E isso não é ensinado, por exemplo, nas escolas ocidentais”.

NOVO EVENTO

Inclusive, o próximo roundtable já tem data confirmada: 25 de maio de 2026. As inscrições podem ser feitas neste link aqui.

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