Adaptabilidade é a habilidade que separa quem cresce de quem estaciona

Na imagem, peças formam “adapte ou falhe” na tradução para o português – Foto: Brett Jordan via Unsplash

Por Nicholas Meira

Existe uma frase que resume bem o momento que vivemos. Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente. É o que melhor se adapta ao ambiente.

Isso foi dito lá atrás, olhando para a natureza, mas nunca fez tanto sentido dentro de uma empresa quanto agora.

Tenho observado um contraste que se repete em quase todo lugar que passo. De um lado, gente jovem resolvendo em minutos o que antes levava horas, usando IA com naturalidade, sem cerimônia, como aquele contador que usa uma calculadora HP12C para calcular uma taxa de juros compostos. Do outro, profissionais extremamente competentes, com anos de estrada, travados diante das mesmas ferramentas. Não por falta de inteligência, mas por desconforto com o novo. E quer saber? Até pouco tempo atrás eu era este cara!

E esse contraste diz muito mais sobre o futuro do trabalho do que qualquer relatório de tendências.

O mundo corporativo sempre premiou conhecimento técnico, tempo de casa, especialização e por que não, a habilidade de se relacionar. Tudo isso continua valendo, não me entenda mal, mas nada disso segura mais ninguém no cargo. A habilidade que virou moeda forte é outra, e é uma habilidade que não aparece em diploma nenhum: adaptabilidade.

As gerações mais novas não estão adotando a IA porque são mais espertas. Elas adotam porque não têm apego ao jeito antigo de fazer. Não existe saudade de um processo que elas nunca viveram. Para elas, a ferramenta nova é só mais uma ferramenta. Já as gerações mais experientes carregam algo valiosíssimo, que é a bagagem, o repertório, a leitura de contexto que só o tempo dá. Mas às vezes essa mesma bagagem vira âncora. E âncora, por definição, prende no lugar.

Quero ser justo aqui, porque o incômodo é real e eu respeito. Reaprender depois de anos dominando algo mexe com o ego. Dá insegurança. Expõe a gente na frente de quem tem metade da idade e o dobro da desenvoltura com a tecnologia. Ninguém gosta de voltar a se sentir aprendiz. Mas o mercado não está pedindo licença para mudar. Ele muda de qualquer jeito, com ou sem a nossa autorização.

E aqui vem a parte que quase ninguém percebe. Essa história é muito maior do que inteligência artificial.

Pensa nos modelos de trabalho. Em poucos anos saímos do presencial obrigatório para o remoto forçado, e agora vivemos num híbrido que muda de empresa para empresa, de time para time. Quem se apegou demais a um único formato sofreu nas duas pontas. Quem entendeu que o formato é meio, e não fim, transitou por todos eles sem perder o passo e garantindo o tesão nas entregas.

Pensa na convivência entre gerações. Hoje é comum uma mesma equipe reunir quatro gerações diferentes, cada uma com sua lógica de comunicação, seu ritmo, sua forma de enxergar hierarquia e propósito. Liderar isso exige tradução constante. Não dá para gerir um profissional de vinte e poucos anos com o mesmo manual que funcionava há vinte anos. Adaptar o estilo de liderança à pessoa que está na sua frente deixou de ser sensibilidade e virou competência técnica.

Pensa nos produtos e serviços. O que era diferencial ontem virou obrigação hoje e estará obsoleto amanhã. Concorrente novo aparece do nada, muitas vezes de um setor que você nem estava olhando. Quem trava a cada novidade vive correndo atrás. Quem desenvolveu o hábito de experimentar rápido ganha vantagem justamente na velocidade de resposta.

Percebe o fio que conecta tudo isso? Em nenhum desses casos o problema é falta de capacidade. É apego. É a resistência silenciosa de quem prefere o conforto do conhecido ao desconforto do novo.

E é por isso que eu defendo que adaptabilidade talvez seja a maior habilidade de todos os tempos. Não porque as outras não importam, mas porque ela é a única que não fica ultrapassada. Conhecimento técnico tem prazo de validade cada vez mais curto. A capacidade de reaprender, não. Ela é o único ativo que se valoriza justamente quando tudo ao redor muda.

Repare numa coisa que talvez incomode. As pessoas que mais crescem hoje raramente são as que mais sabem. São as que mais rápido erram, corrigem e reaprendem. O mercado deixou de premiar o acúmulo e passou a premiar a atualização e a facilidade com que se adapta ao novo.

Então a pergunta que eu deixo não é se você domina IA, nem qual modelo de trabalho você prefere, nem com qual geração você tem mais afinidade. A pergunta é mais simples e mais desconfortável. Quando algo novo aparece na sua frente, você trava ou você experimenta sem medo de errar?

Porque nos próximos anos vai existir só uma divisão que importa de verdade. Não é geração contra geração, não é experiente contra iniciante, não é analógico contra digital. É quem se adapta contra quem resiste.

E resistir, convenhamos, nunca foi um bom plano de carreira. Fica a reflexão!


Nicholas Meira é tributarista com mais de 20 anos de experiência na área, atuando em multinacionis líderes globais de seus segmentos. Presidente na Comunidade Power Tax Brasil, uma comunidade tributária com mais 200 tributaristas, que representam mais de 120 empresas de diversos segmentos de mercado.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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