Novas regras fiscais mudam rotina e exigem mais controle dos negócios de beleza

Na imagem, Davi Iglesias, CEO da Gendo

Por Davi Iglesias

As mudanças recentes na emissão de notas fiscais trouxeram um novo desafio para os salões de beleza que adotam o modelo de profissional parceiro: a transformação de uma obrigação burocrática em parte da rotina do negócio.

As microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional passaram a emitir notas fiscais de serviço exclusivamente pelo Emissor Nacional da NFS-e desde 1º de novembro de 2026, aposentando os antigos sistemas municipais.

Para um setor majoritariamente composto por pequenos negócios, essa adaptação exige atenção redobrada à forma como receitas, profissionais e repasses são contabilizados.

Outro ponto que exige cuidado é o preenchimento do código NBS (Nomenclatura Brasileira de Serviços), que identifica o tipo de atendimento prestado e tornou-se obrigatório para empresas de todos os regimes tributários. Para estabelecimentos que oferecem diferentes serviços, classificar cada procedimento corretamente virou etapa fundamental da organização fiscal.

No modelo de salão parceiro, existe ainda uma particularidade que não pode ser tratada como mero detalhe administrativo: a receita líquida do estabelecimento e a cota-parte do profissional precisam estar rigorosamente separadas.

A parcela repassada ao profissional parceiro não integra o faturamento bruto do salão, o que significa que o cálculo correto desses valores dita o montante real sobre o qual os impostos serão pagos.

Na prática, o salão emite a nota fiscal ao cliente pelo valor total do serviço, destacando o profissional responsável e sua respectiva fatia, amparada pela documentação que comprova o repasse.

Sem esse controle rigoroso, o estabelecimento corre o risco de pagar tributos sobre valores que não lhe pertencem. Por outro lado, fazer deduções sem o respaldo documental adequado expõe o negócio a riscos em eventuais fiscalizações.

O DESAFIO DO CONTROLE POR ATENDIMENTO

É justamente nessa etapa que a operação costuma apertar. O salão precisa mapear cada atendimento com precisão, considerando quem realizou o serviço, quanto foi cobrado, qual percentual cabe ao parceiro, qual é a margem do estabelecimento e como tudo isso se conecta à nota fiscal e ao repasse financeiro.

Quando esse controle depende de cadernos, planilhas soltas ou softwares que não se comunicam, aumentam as chances de erros, retrabalho e divergências de caixa. Uma gestão organizada exige que cliente, serviço, profissional, valores, notas fiscais e repasses formem um fluxo rastreável de ponta a ponta.

Por isso, integrar o controle dos atendimentos à gestão financeira e fiscal deixa de ser apenas uma questão de praticidade. A agenda pode fornecer informações importantes para acompanhar os serviços prestados por cada profissional, calcular os repasses e manter um histórico que dê suporte à documentação fiscal.

Quanto menos etapas dependerem de transcrição manual, menor o espaço para divergências entre o que aconteceu no atendimento e o que foi registrado posteriormente.

Essa organização também impacta a rotina dos profissionais parceiros. Eles precisam manter a situação cadastral regularizada e emitir a nota fiscal correspondente à cota-parte recebida pelo salão.

É possível emitir uma única nota fiscal de serviços por mês com o valor total da cota-parte. Para quem atua como MEI, a emissão deve ser realizada pelo Portal do Simples Nacional. Assim, o salão também precisa acompanhar se os parceiros estão cumprindo corretamente suas obrigações e se os repasses estão devidamente documentados.

FISCALIZAÇÃO E GESTÃO CAMINHAM JUNTAS

Mais do que uma mudança na emissão de documentos, esse novo cenário reforça uma transformação já observada na gestão dos negócios de beleza: necessidade de conectar operação e controle financeiro. A emissão fiscal encerra a tarefa isolada que sobrava para o contador e passa a exigir precisão nos dados digitados durante o próprio atendimento.

O primeiro passo para o gestor consiste em conferir a regularização da documentação dos parceiros e, em seguida, garantir que as notas emitidas reflitam a realidade da cadeira. Quando todas essas informações rodam em um mesmo sistema de gestão, unindo agenda, faturamento e repasse, o processo flui com naturalidade, eliminando planilhas paralelas. No fim das contas, a digitalização cumpre a lei e impulsiona a profissionalização do negócio.


Davi Iglesias é CEO da Gendo, plataforma de agendamento online e gestão voltada para micro, pequenas e médias empresas.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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