O Portal que se abriu: parabéns a estes 2 anos de festa e profunda contribuição da nova linguagem da reforma tributária 

portal da reforma tributaria - logo cinza

Por Eurico Santi

Há histórias que terminam com uma porta se fechando. A que celebramos hoje  começa com um portal se abrindo — e ele acaba de completar 2 anos de vida,  recebendo a todos de braços abertos. 

Em Diante da Lei (Vor dem Gesetz), a célebre parábola de Franz Kafka incorporada  a O Processo, um homem do campo chega à porta da Lei e pede para entrar. A porta  está aberta, mas um porteiro barra sua passagem: talvez depois, “mas agora não”. O  homem espera a vida inteira. Entrega seus bens, formula perguntas, envelhece diante  da entrada — e somente no instante da morte descobre que aquela porta havia sido  construída exclusivamente para ele. Então o porteiro anuncia que irá fechá-la. 

Este é o video de abertura do Filme “The Trial” (1962), homônimo do livro “O Proceso” de Orson  Wells

Durante décadas, essa cena sombria descreveu com perturbadora precisão a relação  do brasileiro com seu sistema tributário: o contribuinte do lado de fora, esperando  até a morte diante de uma Lei que nunca o recebia. Entre ele e o direito, sucessivos  porteiros — União, estados e municípios legislando e fiscalizando de forma  fragmentada, milhares de atos normativos, guerra fiscal, obrigações incompatíveis,  contencioso infinito. Três ordens fiscais que raramente falavam a mesma língua,  cada qual guardando sua própria entrada. 

Pois é exatamente essa história que começamos a reescrever. E há dois anos existe  um lugar onde ela é reescrita todos os dias, com alegria, método e espírito público. 

PARABÉNS, PORTAL! 

Os dois anos do Portal da Reforma Tributária merecem festa — e não uma festa  qualquer. Não celebramos apenas o aniversário de um site especializado. Celebramos  a consolidação de um veículo que nasceu junto com a maior transformação do  sistema tributário brasileiro em quase seis décadas e abraçou, com entusiasmo  contagiante, uma tarefa republicana: abrir caminhos de compreensão entre a nova  Constituição tributária, os três fiscos, as empresas, os profissionais e os cidadãos.

Enquanto o homem de Kafka esperava por uma autorização que nunca chegava, o  Portal faz o gesto oposto: convida, acolhe, traduz, ensina, conecta. Onde o porteiro  dizia “agora não”, o Portal diz “seja bem-vindo — e vamos juntos”

A NOVA ARQUITETURA QUE DÁ MOTIVOS PARA COMEMORAR 

A Emenda Constitucional 132, promulgada em 20 de dezembro de 2023, fez muito  mais do que substituir ICMS, ISS, PIS e Cofins pelo IBS e pela CBS. Ela redesenhou  a arquitetura das relações tributárias no País — e para melhor. Pela primeira vez,  União, estados, Distrito Federal e municípios foram chamados a operar, de forma  coordenada, tributos submetidos a uma mesma lógica econômica, a conceitos  comuns e a uma infraestrutura tecnológica integrada. 

A União administra a CBS. Estados, Distrito Federal e municípios compartilham a  competência e a governança do IBS por meio do Comitê Gestor. E os dois tributos  integram um mesmo modelo de IVA dual, assentado na base ampla, na não  cumulatividade, na tributação no destino, na transparência e na neutralidade. O que  antes eram três corredores burocráticos separados converte-se, diante de nossos  olhos, em um espaço comum de cooperação. 

Eis a grande e luminosa imagem do novo tempo: os três fiscos deixam de atuar como  porteiros de entradas rivais e passam a trabalhar juntos na construção de um mesmo  sistema. 

O trocadilho é também uma tese institucional — e uma tese feliz. Em Kafka, a porta  separa e se fecha. Na Reforma Tributária, o Portal conecta e se abre. Conecta União,  estados e municípios. Conecta o documento fiscal ao pagamento, à apuração e ao  crédito. Conecta o fornecedor ao adquirente. Conecta a lei complementar aos  sistemas digitais. Conecta o conhecimento acadêmico à prática empresarial. Conecta,  enfim, o Estado ao cidadão. 

DOIS ANOS DE TRABALHO VIBRANTE 

E que dois anos! Um período marcado pela aprovação das Leis Complementares  214/2025 e 227/2026, pela instituição do Comitê Gestor do IBS, pela construção dos  regulamentos, pela adaptação dos documentos fiscais e pelo desenvolvimento de  novas soluções tecnológicas. Em meio a essa efervescência histórica, o Portal tornou-se o ponto de encontro das diferentes vozes da transição. 

Ali se reúnem notícias, artigos, entrevistas, estudos, cursos, debates, legislação e  ferramentas. Mais importante: ali se reúnem perspectivas. Servidores públicos,  juristas, contadores, economistas, empresários, profissionais de tecnologia e  representantes dos mais diversos setores observam o mesmo processo por ângulos 

diferentes — e conversam. O Portal não substitui a lei nem fala em nome dos fiscos.  Ele faz algo melhor: cria o ambiente público, plural e acolhedor no qual a lei pode ser  conhecida, interpretada, discutida e aperfeiçoada. 

Essa função é motivo genuíno de celebração, porque nenhuma reforma se realiza  apenas pela publicação de normas. Entre o texto constitucional e a vida concreta  existe um vasto território: regulamentos, notas técnicas, documentos fiscais  eletrônicos, sistemas de apuração, split payment, contratos, cadastros, créditos,  pagamentos e decisões empresariais. Se esse território permanecesse obscuro, os  antigos porteiros reapareceriam com outros nomes. Graças ao trabalho diário do  Portal, ele fica cada vez mais iluminado. 

A NOVA GRAMÁTICA — E A ALEGRIA DE APRENDÊ-LA JUNTOS 

O maior desafio da transição não é apenas tecnológico. É cultural e epistemológico.  Existe o risco de interpretar o IBS e a CBS com as categorias, os vícios e os medos  construídos no mundo do ICMS, do ISS, do PIS e da Cofins — o famoso path  dependence: trocam-se as siglas, mas preserva-se o modo antigo de pensar. Contra  esse risco, informação qualificada não significa reproduzir atos normativos. Significa  ensinar o País, com paciência e bom humor, a compreender a nova gramática  institucional. 

Lourival Vilanova ensinava que o mundo é alterado pelo trabalho e pela tecnologia,  enquanto o mundo social é transformado pela linguagem das normas jurídicas. A  nova Reforma Tributária combina, festivamente, as três dimensões: a norma  redesenha as relações; a tecnologia integra documentos, créditos, pagamentos e  arrecadação; e o trabalho conjunto de milhares de servidores, empresários e  profissionais converte o projeto constitucional em realidade viva. 

O Portal participa dessa transformação construindo o que talvez seja seu presente de  aniversário mais valioso para o País: uma linguagem comum. E uma linguagem  comum é a condição para que os três fiscos cooperem sem eliminar a autonomia  federativa. O federalismo brasileiro não desaparece — floresce. Cooperação não é  centralização, é coordenação. Não é uniformidade absoluta, é unidade dos conceitos  essenciais. Não é predomínio de um ente, é a criação de instituições capazes de  transformar diversidade federativa em ação conjunta. 

Nesse sentido, o Comitê Gestor do IBS é uma inovação histórica digna de brinde:  estados e municípios, antes separados por legislações, sistemas e interesses  conflitantes, passam a compartilhar regulamentação, arrecadação, fiscalização e  distribuição de receitas. Receita Federal e Comitê Gestor coordenam a operação da 

CBS e do IBS. Pela primeira vez, os três níveis da Federação são induzidos não apenas  a coexistir, mas a colaborar. 

O Brasil substitui, progressivamente e para nossa alegria, o federalismo da disputa  pelo federalismo da cooperação. 

DE ESPECTADORES A PROTAGONISTAS 

O Portal da Reforma Tributária é o espelho comunicacional dessa mudança.  Enquanto os fiscos constroem a infraestrutura jurídica e tecnológica do novo sistema,  o Portal constrói sua infraestrutura de informação: torna visível o que é  decidido, traduz o que parece excessivamente técnico, antecipa impactos, expõe  divergências, aproxima o debate público da implementação cotidiana. 

Porque a transparência não é apenas disponibilizar a lei. É permitir que ela seja  encontrada, compreendida, debatida, criticada e aplicada. Uma norma pode ser  formalmente pública e materialmente inacessível — Kafka percebeu essa distância  cruel: a porta estava aberta, mas o homem não conseguia atravessá-la. Publicidade  sem compreensão conserva a exclusão. 

A cidadania fiscal exige mais — e o Portal entrega mais. Exige que o contribuinte  saiba por que paga, quanto paga, quem arrecada, como os recursos são distribuídos  e quais direitos surgem de cada operação. Exige que as empresas compreendam seus  créditos e obrigações. Exige que os fiscos expliquem seus sistemas e coordenem suas  orientações. Exige que a sociedade acompanhe a transição e participe, ativamente e  de bom ânimo, do aperfeiçoamento das novas instituições. 

É a corrente virtuosa que o Portal aciona todos os dias: publicidade que vira  transparência; transparência que vira compreensão; compreensão que vira  cidadania. 

VIGILÂNCIA SIM — MAS COM ESPERANÇA 

Naturalmente, a Reforma não abolirá por decreto todos os labirintos. Exceções  excessivas podem comprometer a neutralidade; obrigações desnecessárias podem  enfraquecer a simplicidade; interpretações isoladas podem reconstruir a  fragmentação; a falta de diálogo pode instalar novos guardiões diante da porta. Por  isso, o trabalho de informação e vigilância crítica não termina com a aprovação das  leis — torna-se ainda mais importante durante a implementação. Mas há uma  diferença fundamental em relação ao passado: agora essa vigilância é feita à luz do  dia, em praça pública, com a porta aberta. E isso muda tudo.

O BRINDE FINAL

Celebrar os dois anos do Portal da Reforma Tributária é celebrar uma instituição da  nova cidadania fiscal. Um veículo que não apenas noticia a Reforma, mas ajuda a  formar, com entusiasmo, a comunidade que irá realizá-la. Um espaço no qual os três  fiscos aparecem como partes de um único projeto nacional; no qual os contribuintes  deixam de ser espectadores passivos; e no qual o conhecimento deixa de ser privilégio  dos antigos guardiões para se tornar patrimônio de todos. 

No conto de Kafka, o homem espera até a morte por uma autorização que nunca  chega — e a porta, construída só para ele, se fecha para sempre. Na democracia, o  cidadão não pode passar a vida diante da Lei: precisa compreendê-la, atravessá-la e  participar de sua construção. 

Durante muito tempo, o sistema tributário brasileiro produziu portas fechadas,  corredores separados e porteiros rivais. A EC 132 abriu a possibilidade de outra  história — três fiscos trabalhando juntos, sob princípios comuns, em diálogo com  empresas e cidadãos. E há dois anos existe quem trabalhe, diariamente, para que essa  história tenha final feliz. 

Em Kafka, a porta se fecha até a morte do contribuinte. Na nova Reforma Tributária, o Portal se abre para a vida de todos.

Parabéns pelos dois anos, Portal da Reforma Tributária! Que venham  muitos outros — sempre de portas abertas, para que ninguém, nunca  mais, permaneça do lado de fora. 


Eurico Marcos Diniz de Santi é professor do mestrado/doutorado profissional da FGV Direito SP, fundador do NEF/FGV, onde teve origem o “PROJETO NOSSA REFORMA TRIBUTÁRIA” (2014), fundador do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal – 2015), onde se concretizou as notas técnicas e o texto base da EC 132 de 2023 e do projeto “Nosso Orçamento Público” (2026). Autor do livro “Reforma Tributária Para Você, Contribuinte” (680 páginas que será lançado no início de julho/2026 pela Editora Thomson Reuters).


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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