Reforma tributária: como chegamos até aqui?

Imagem: Reprodução via Magnific

Por Ana Ribeiro

Quando iniciei a minha carreira na área tributária, eu não imaginava que um dia escreveria sobre tecnologia. A verdade é que, naquela época, tecnologia era quase um detalhe — um apoio, não um protagonista.

Em 1999, iniciei minha carreira em consultoria tributária, em um ambiente acelerado, com diversas planilhas abertas diariamente, livros técnicos sempre à mão e consultas constantes à legislação impressa. Ao mesmo tempo, havia boletins mensais que arquivávamos com todo cuidado, e também uma lista impressa com as notícias tributárias do dia, que circulava pelo escritório com textos destacados com marca-texto.

Depois de alguns anos, migrei para a indústria, e foi ali que realmente percebi que o mundo dos profissionais da área estava mudando.

MELHORIAS EM TODAS AS OPORTUNIDADES

O dia a dia na indústria é bem diferente das consultorias. Lá, estamos na operação do início, meio e fim, o que nos dá a oportunidade de identificar melhorias em vários processos, e não apenas na nossa área.

Com a possibilidade de circular em diferentes áreas — já que a área tributária está envolvida em todas elas —, sempre existe oportunidade de melhoria, seja de processos ou até mesmo de treinamento.

Nas minhas primeiras semanas na indústria, uma das coisas que mais me marcaram foram as análises manuais diárias.

A rotina do time envolvia imprimir três vias de nota fiscal, conferir linha por linha, separar, grampear e arquivar.

Quando tudo é manual, parece que você “vê” o trabalho acontecendo.

Mas também havia lentidão. Havia retrabalho. Havia pilhas de documentos físicos para serem arquivados.

Sem falar que, no início de cada fiscalização ou auditoria, já reservávamos uma sala especial para que todos aqueles documentos fossem analisados de acordo com as amostragens e seleções.

O DIA EM QUE A FORMA DE TRABALHO COMEÇOU A MUDAR

Em abril de 2008, com a implementação da nota fiscal eletrônica, iniciou-se um processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, uma certa desconfiança de que o processamento talvez não fosse tão ágil e imediato como imaginávamos. Mas, para a surpresa de todos, foi.

A chegada da NF-e foi um marco para todas as empresas e também para o futuro dos profissionais que atuam na área.

De repente, aquele barulho do carimbo de cancelamento de notas virou memória. A impressão virou exceção. E a agilidade virou regra.

O tempo e a forma de trabalho, aos poucos, foram migrando para atividades muito mais estratégicas.

No começo, podemos até ter sentido um certo estranhamento. Tínhamos aprendido a confiar no papel e, agora, precisávamos confiar na tela, no XML, no sistema.

Mas, em pouco tempo, percebemos que algo essencial estava acontecendo: não estávamos apenas fazendo mais rápido; estávamos trabalhando melhor.

O início dessa nova forma de comunicação com o governo e de trabalho nos mostrou um futuro mais ágil.

A FISCALIZAÇÃO SEM BATER NA PORTA

Com a evolução das obrigações acessórias eletrônicas, algo mudou silenciosamente: o governo ficou mais rápido do que nós.

Se antes reservávamos a salinha para auditores fiscais, que ficavam a alguns metros de distância pedindo pastas e cópias, agora ela acontece no sistema, muitas vezes antes mesmo de você perceber que existe um erro.

Esse novo ritmo exigiu outro tipo de profissional: mais atento, mais analítico, mais colaborativo com áreas que antes pareciam distantes — TI, contabilidade, controladoria, automação, vendas, compras e também engenharia, a depender do ramo de atividade.

Eu, que sempre gostei de entender a “causa raiz” das coisas, passei a usar esse instinto para navegar nesse novo cenário. A tecnologia trouxe velocidade, mas também trouxe responsabilidade.

O erro que antes se perdia entre pilhas de papel agora aparece em segundos, no cruzamento de dados.

E, apesar da pressão, isso nos faz crescer.

APRENDER O NOVO SEM DESAPRENDER DA EXPERIÊNCIA

Observando o passado e o que ainda vem pela frente — e sabendo que são inúmeras mudanças com a Reforma Tributária —, percebo que a tecnologia não mudou só a área tributária: mudou a nossa forma de trabalhar como profissionais.

Aprendemos a:

  • confiar mais em dados do que em intuição;
  • questionar cada vez mais se o “número faz sentido”, considerando o cenário atual e cruzando com diversos outros dados;
  • perguntar mais (e sempre);
  • trabalhar junto com áreas com as quais não tínhamos muita sinergia no passado;
  • enxergar cada vez mais a área como parte estratégica do negócio.

Nestes 30 anos, aprendi, principalmente, que nada substitui o olhar humano. A tecnologia organiza, alerta, cruza, calcula. Mas interpretar, contextualizar e decidir ainda é sobre nós — sobre pessoas.

O FUTURO CHHEGOU DEVAGAR, MAS AGORA ESTÁ MUITO MAIS RÁPIDO

Atualmente, em nossas discussões sobre inteligência artificial, automação, análises preditivas e dashboards em tempo real, eu sorrio, pois sabemos de onde viemos, o que enfrentamos e como chegamos até aqui (carimbo, impressora, papéis impressos).

E sei que tudo isso faz parte da nossa história — daqueles que iniciaram a carreira perto dos anos 2000, passaram pelo analógico e hoje estão no digital.

A tecnologia ampliou os nossos espaços, nos trouxe novos desafios e também novas possibilidades.

Em março, viajei para a matriz da empresa, localizada na Alemanha, e, dentre todas as discussões, a principal era a tecnologia na Europa no que se refere ao “e-invoicing” (Business to Government e Business to Business). Alguns países já estão avançados nessa discussão, enquanto outros buscam formas aceleradas de modernizar os sistemas fiscais, com o objetivo de combater fraudes e aumentar a eficiência operacional.

E, no meio de toda essa discussão, lembrei de março — mas no ano de 2018 —, quando estive na mesma reunião na Alemanha apresentando aos meus colegas a tecnologia do governo brasileiro no que se refere à nota fiscal eletrônica, SPED, REINF, ECD, eSocial e todos os cruzamentos de dados que possuímos, além das fiscalizações na era digital.

Na ocasião, em 2019, uma colega da China também apresentou os mesmos avanços da tecnologia chinesa no que tange aos documentos eletrônicos e obrigações fiscais.

No fundo, a evolução da área tributária é também a evolução de quem trabalha nela e continua aprendendo — lembrando sempre que a transformação não acabou e provavelmente nunca vai acabar.

E isso, sinceramente, me anima.


Ana Ribeiro é Head of Tax da ZF Group e professora da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.


Este artigo foi publicado anteriormente na 6ª edição da Revista da Reforma Tributária. Clique aqui para assinar e receber as próximas edições.

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