
Por Douglas Rodrigues, de São Paulo
O Banco Rendimento e a ROIT lançaram, dias 13 e 27 de abril de 2026, o primeiro projeto estruturado de split payment privado do país voltado para a CBS e o IBS, os novos tributos sobre o consumo. A iniciativa foi apresentada para duas turmas na sede do Google Cloud, em São Paulo, e reúne tecnologia bancária e integração com sistemas fiscais para viabilizar a nova lógica de arrecadação prevista na reforma.
A proposta antecipa um dos pilares operacionais do novo modelo tributário: a separação automática, no momento do pagamento, entre o valor da operação e os tributos devidos. A estratégia é, com isso, reduzir riscos de inadimplência, aumentando a transparência e alterando de forma estrutural o fluxo financeiro das empresas.
A solução que está em fase piloto com empresas:
- Incorpora regras de:
- Split payment
- Penalidades
- Emissão e validação fiscal
- Liquidação financeira
- Permite padronizar operações entre fornecedores e clientes;
- Conecta empresas a bancos, ERPs e ao sistema fiscal.
Durante a abertura, o presidente do Banco Rendimento, Cesar Ades, destacou o papel do sistema financeiro na viabilização das operações das empresas. Além disso, citou a necessidade de construir infraestrutura desde já para suportar o novo modelo.
Também presente no evento, Eurico de Santi, um dos idealizadores da proposta que originou a PEC 45/2019, reforçou que o split payment é um elemento central da nova arquitetura tributária. “O split payment criou essa situação muito especial de fazer com que quem efetivamente paga o tributo tenha direito ao crédito, se for contribuinte. E se não for contribuinte, ele vai ter o direito à informação transparente de quanto está pagando”, afirmou.
Segundo Santi, o modelo nasce de duas frentes: a incorporação de tecnologia ao sistema tributário e a necessidade de combater distorções estruturais, como fraudes com notas fiscais e geração artificial de créditos. “Hoje, as notas fiscais geram créditos que valem como moeda para pagar tributos, mas não existe controle efetivo sobre esses créditos nem sobre o pagamento real dos tributos”, disse.
No evento, Lucas Ribeiro, CEO da ROIT, apresentou em detalhes o funcionamento operacional do split e a estratégia por trás da solução desenvolvida. Segundo ele, a mudança mais profunda está na forma como empresas passam a enxergar suas operações: “Estamos habituados a trabalhar com preços brutos, com tributos embutidos. Agora, passamos a separar claramente o valor líquido da operação dos tributos, o que muda completamente a lógica financeira das transações”.
Ribeiro explicou que, no novo modelo, o tributo pode ser recolhido no momento do pagamento pelo adquirente -via split ou por outros mecanismos previstos na legislação- o que altera a dinâmica tradicional em que o fornecedor concentra essa responsabilidade. “O que a legislação trouxe foi a possibilidade de o pagamento do tributo ocorrer na ponta de quem compra. Isso muda a relação entre empresas e exige uma reorganização contratual e operacional”, afirmou.
Na prática, isso significa que empresas passam a operar com diferentes estratégias nas relações com clientes e fornecedores, buscando equilíbrio entre custo financeiro, risco de crédito e dependência operacional. “Se bem estruturado, o modelo pode reduzir drasticamente o risco de perda de crédito e eliminar ineficiências históricas do sistema atual”, disse.
Ele destacou ainda que o split payment tem impacto direto sobre o fluxo de caixa das empresas, especialmente durante os primeiros anos de transição da reforma. “Quando o tributo é recolhido no momento correto e o crédito é apropriado de forma imediata, você deixa de carregar distorções financeiras. Em alguns cenários, esse crédito retorna em poucos dias, o que melhora o capital de giro de forma significativa”.
Ao mesmo tempo, Ribeiro alertou que a ausência de estratégia pode gerar perdas relevantes. “Se as empresas não ajustarem contratos e não definirem como operar, o padrão tende a ser o pior cenário possível: pagar tributo sem garantia de crédito ou assumir riscos desnecessários. Isso pressiona o caixa e pode gerar perdas financeiras relevantes”.
Segundo ele, o split não é apenas uma mudança operacional, mas uma nova variável competitiva. “A forma como cada empresa estruturar suas relações com clientes e fornecedores vai impactar diretamente seu resultado financeiro. Não é mais só uma discussão tributária, é uma decisão de negócio”.
Os 4 cenários possíveis nas relações comerciais
Durante a apresentação, Ribeiro detalhou quatro modelos de liquidação que devem surgir com a reforma:
- Modelo padrão (“pagar o pato”)
- fornecedor arca com tributo antecipado e financia o adquirente sem querer;
- maior custo financeiro e risco concentrado.
- “Roleta russa”
- adquirente depende do pagamento do fornecedor para ter crédito;
- alto risco de perda tributária.
- Liquidação integrada (“cash burn”)
- tributo e principal são pagos separadamente;
- exige mais capital de giro.
- Modelo ideal (“super fair”)
- adquirente paga tributo diretamente ao fisco, no vencimento do tributo e paga o líquido no vencimento comercial, datas diferentes, valores diferentes;
- crédito garantido e menor risco sistêmico.




Solução
O executivo também ressaltou que a solução desenvolvida para o Banco Rendimento pela ROIT foi pensada para permitir implementação gradual e adaptada à realidade das empresas. A proposta foca, inicialmente, nas operações entre empresas (B2B), onde há maior volume financeiro e menor necessidade de processamento em tempo real, facilitando a adoção.
Além disso, o modelo busca dar maior controle ao adquirente sobre o pagamento, evitando dependência de instrumentos como boletos emitidos por fornecedores e reduzindo riscos associados a erros ou fraudes. Nesse desenho, o banco atua como agente de liquidação dos tributos, sem interferir na validação fiscal, que permanece sob responsabilidade das empresas.
Outro ponto destacado foi o impacto macroeconômico do split payment. Segundo Ribeiro, a expectativa é de aumento relevante na arrecadação, com redução da sonegação e maior controle sobre créditos tributários. Esse efeito, inclusive, pode contribuir para a redução das alíquotas futuras da CBS e do IBS, conforme previsto na legislação.
O lançamento marca um avanço concreto na preparação do setor privado para a implementação da reforma tributária, que deve entrar em uma nova fase a partir de 2027. A expectativa é que soluções como essa ganhem escala nos próximos anos, à medida que empresas busquem reduzir riscos e otimizar sua operação dentro do novo modelo.
O executivo também alertou para o nível de detalhamento exigido na operação. “O contas a pagar vai ter que ter controle nota a nota, pagamento por pagamento. A gestão precisa ser em tempo real para garantir a posição correta”, afirmou.
Na avaliação dele, empresas que não se adaptarem podem enfrentar riscos relevantes. “Se nós não fizermos nada, esse é o cenário em que todos nós estaremos”, disse, ao se referir aos modelos mais desfavoráveis de operação. “O erro, agora, custa muito caro”.
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