
Por Taas

Empresas do Lucro Real que chegarem a 2027 com o cadastro de fornecedores desatualizado correm o risco de perder crédito de CBS logo em janeiro, quando o novo tributo passa a substituir PIS e Cofins. O alerta partiu de Jean Soares, CEO da consultoria Taas Consulting, que apresentou uma simulação durante o SAP Inside Track, na PUC-SP, no sábado (25/08), para uma plateia de cerca de 150 pessoas. Ao lado dele, Rosanna Matsuo, gerente de Reforma Tributária da empresa, detalhou por que a qualidade dos dados cadastrais se tornou o ponto mais sensível da transição.
A conta que Jean colocou na tela foi direta: se um terço da produção de uma indústria depende de um fornecedor que não recolhe seus tributos -e acumula pendências de FGTS e certidões negativas-, o comprador pode simplesmente não conseguir aproveitar o crédito referente a essas compras. “Se 30% da minha produção depende desse fornecedor, eu não vou ter o crédito disso que hoje eu tenho, porque esse fornecedor não paga os impostos”, resumiu na palestra.
“Regime regular não é sinônimo de fornecedor regular”
A tese central foi ilustrada por uma base real analisada pela Taas em projetos de reforma tributária: 3.652 fornecedores, todos em regime regular. Mesmo nesse recorte teoricamente saudável, a consultoria encontrou 148 fornecedores com FGTS irregular (4,1%) e 31 com certidão (CND) positiva (0,8%) — situações que, na prática, podem travar o crédito de quem compra deles.
“Regime regular não é sinônimo de fornecedor regular”, trouxe um dos slides. A garantia do crédito, mostraram os palestrantes, passa a depender também da regularidade de FGTS, das certidões e do perfil fiscal de cada fornecedor, informações que muitas empresas hoje sequer monitoram.


O crédito “não nasce da compra”
Rosanna classificou a reforma como “a maior mudança dos últimos 50 anos” e explicou o que muda no fundamento: o fato gerador deixa de estar na circulação e na receita e passa a incidir sobre o consumo. Isso amplia tanto os débitos quanto os créditos. Mas, segundo ela, nem sempre a conta fecha a favor do contribuinte. “Nem sempre eu vou ter mais crédito do que débito”, ponderou.
É nesse ponto que os dados mestres: cadastro de fornecedores e de materiais, incluindo a classificação fiscal (NCM), deixam de ser detalhe e viram condição para o crédito. A mensagem foi sintetizada em um dos slides da apresentação: na reforma, o crédito “não nasce da compra”, e sim “da correta caracterização da operação”.
Os palestrantes lembraram ainda que a percepção de “crédito pleno” (a ideia de que toda aquisição geraria automaticamente direito a IBS e CBS) está incompleta. A Lei Complementar 214/2025 criou exceções, tratamentos específicos e limitações que precisam ser analisados operação a operação.
Apuração assistida
Outro alerta recaiu sobre a chamada apuração assistida. O Fisco vai entregar um cálculo pré-preenchido a partir dos documentos fiscais eletrônicos, mas a responsabilidade pelo pagamento continua sendo da empresa — e a apuração é “virtual, não real”, como frisaram os palestrantes. O fato de um XML estar vinculado a um CNPJ não prova que o consumo aconteceu; o que vale é a operação efetiva.
O problema aparece nas divergências. A Taas relatou casos em que a NCM registrada na nota fiscal não correspondia ao produto. Para se ter uma ideia, havia até item cadastrado com a classificação de “água” sendo, na verdade, outra mercadoria. Como a NCM pode aparecer diferente no cadastro do material, no XML e no apontamento de produção, a empresa acaba com “três universos” para conciliar, o que tende a gerar inconsistências e, no limite, custo tributário inesperado já na virada para 2027.
Grupos econômicos
Ao cruzar as bases de fornecedores com dados públicos da Receita Federal, a consultoria mostrou como muitos dos milhares de CNPJs de uma carteira pertencem, na prática, ao mesmo grupo econômico –identificado pelo quadro societário em comum. O efeito prático é um risco oculto: em um mesmo grupo, uma empresa pode estar regular enquanto outra, com o mesmo dono, acumula irregularidades. Comprar da “filial” errada pode significar perder crédito sem que o comprador perceba.
Para os casos de fornecedor que não recolhe, Rosanna citou um mecanismo previsto para a transição (RAD): uma espécie de recolhimento antecipado pelo próprio adquirente, que paga o tributo diretamente ao Fisco para assegurar o crédito de IBS e CBS na apuração assistida. A saída, ressalvou, tem limitações e exige previsão contratual com o fornecedor.
“Não é discurso de consultor”
O recado final dos palestrantes foi que a reforma tributária extrapola o departamento fiscal. “Não é só tributo. É operação, é negócio, é compra, é venda”, afirmaram, defendendo que empresas abertas a rever cadastros, compras e governança podem transformar a complexidade em ganho –enquanto as que ignorarem a limpeza da base correm o risco de descobrir o rombo apenas quando o crédito não aparecer.




O SAP Inside Track é um evento comunitário voltado a clientes, consultores e desenvolvedores do ecossistema SAP, realizado na PUC-SP, no campus Consolação.
Fundada em 2023, a Taas tem a missão de garantir eficiência, reduzir riscos fiscais e assegurar total conformidade com a legislação tributária – algo cada vez mais fundamental em um momento de transição tributária.
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