
Por Douglas Rodrigues e Enzo Bernardes, de Brasília
Sara Santos, diretora tributária na Colgate-Palmolive Brasil, começou a trajetória profissional antes mesmo de decidir que seguiria carreira na área tributária. Em 1999, iniciou um curso técnico de contabilidade durante o ensino médio. Na época, também buscou cursos voltados ao trabalho em escritório.
A primeira experiência profissional veio em 2000, em um estágio de auditoria na administradora de shoppings Plaza Paulista. O trabalho envolvia o controle das vendas das lojas e ainda estava distante da área que estudava.
Depois, Sara ingressou na faculdade de contabilidade e passou a se aproximar da profissão. Durante o primeiro ano na Trevisan Escola de Negócios, recebeu o convite de uma colega para participar de um processo seletivo da área de outsourcing da instituição.
A vaga era para atuar na Maersk. Sara foi contratada pela Trevisan e alocada na empresa de transporte e logística. Poucos meses depois, foi efetivada pela própria Maersk. A experiência na empresa marcou o início de sua trajetória na área fiscal.
O PRINCÍPIO
Na Maersk, Sara começou na contabilidade. Pouco depois, recebeu o convite para ajudar a estruturar a área fiscal da empresa. A partir daí, passou por diferentes atividades. Começou com retenções. Depois, avançou para apurações e outros processos da área.
“Comecei fazendo retidos, depois eu fui fazendo apuração de Pis/Cofins. Depois fui fazer apuração de Imposto de Renda e contribuição social. Passei por tudo. E conforme eu ia passando, eu ia estruturando os processos, aí a gente contratava alguém para ficar no lugar“, disse.
A experiência durou 5 anos. Sara entrou como assistente contábil e deixou a empresa como supervisora fiscal. Durante esse período, também acompanhou mudanças na estrutura da operação.
A área passou por terceirização e depois por um processo de centralização de atividades em um CSC (Centro de Serviços Compartilhados) nas Filipinas.
EXPERIÊNCIA
Depois da Maersk, Sara decidiu mudar de segmento. Foi para a Louis Dreyfus Commodities Brasil, onde entrou como especialista. A mudança não foi motivada apenas pelo cargo. O objetivo era conhecer um novo negócio e ampliar a experiência profissional.
Na companhia, passou posteriormente à posição de coordenadora. Também assumiu responsabilidades relacionadas a tributos diretos e participou de projetos envolvendo aquisição de empresas.
A experiência trouxe novas responsabilidades. Sara passou a participar de comitês fiscais e de reuniões com executivos de outros países. Também precisou ampliar o uso do inglês no trabalho. Segundo ela, foram experiências que contribuíram para aumentar sua exposição e desenvolver habilidades de comunicação.
A chegada à Colgate aconteceu por meio de uma relação construída na própria carreira. A profissional que havia chamado Sara para estruturar a área fiscal da Maersk havia migrado para a companhia e fez o convite. Sara entrou na Colgate em dezembro de 2012.
CONHECIMENTO
Desde o início da carreira, Sara adotou uma postura de aprofundamento técnico. Ela conta que nunca se limitou à tarefa que recebia. A busca era entender cada atividade em profundidade. Para isso, recorria a cursos, livros e à própria legislação:
“Eu sempre tentava entender um pouquinho além do que eu fazia […] Por exemplo, eu ia fazer retenções na fonte, foi a primeira coisa que eu fiz. Então pensava: como eu posso aprender a ser a melhor pessoa para apurar retenções na fonte?“, disse.
Na prática, esse comportamento também fazia com que ela buscasse entender o funcionamento das outras áreas da empresa. Para Sara, a comunicação foi fundamental nesse processo. Ela não tinha receio de procurar profissionais de outras áreas para entender um processo ou tirar uma dúvida: “Comunicação, sem dúvida, sempre foi muito chave. Sempre me abriu muitas portas“, afirmou.
Na Colgate, esse perfil também levou Sara a identificar oportunidades para criar e melhorar processos.
LIDERANÇA
A evolução para posições de gestão trouxe um desafio diferente. Sara precisou aprender a deixar de acompanhar tudo no detalhe. O processo envolveu entender que liderar não significava executar ou conferir pessoalmente cada etapa. Era necessário criar mecanismos para acompanhar o trabalho.
“É o progress over perfection, quando você vê o progresso acima da perfeição. Isso, para mim, foi a maior virada de chave. Foi o que me permitiu chegar à diretoria, sem dúvida. Inclusive, a minha promoção à gerente sênior foi quando eu entendi“, disse.
Na Colgate, Sara participou da implementação de um Scorecard para os analistas da área fiscal. A ferramenta estabelecia as atividades e criava indicadores para acompanhar a execução.
Hoje, parte desse aprendizado também está relacionado à formação de profissionais que cresceram com ela na companhia. Sara conta que pessoas que começaram como analistas e chegaram a posições de coordenação e gerência também carregaram parte desse perfil mais detalhista.
PROCESSOS
Dois projetos realizados na Colgate tiveram destaque na trajetória de Sara. O primeiro envolveu a remodelação do processo de P2P (Procure-to-Pay). O objetivo era automatizar o fluxo desde a criação do pedido até o lançamento da nota fiscal.
O projeto durou cerca de um ano e meio e chegou a 98% de automação, segundo Sara: “Eu falei com dezenas de empresas quando precisamos mudar a ferramenta e praticamente ninguém tinha esse nível de automação no mercado“, disse.
Outro projeto marcante foi a implementação do S/4Hana. O Brasil participou da primeira implementação na região Latam. Sara atuou como co-líder do projeto no país. Entre as atividades estavam o acompanhamento, a organização dos testes e o controle do cronograma.
COMUNICAÇÃO
A comunicação aparece novamente quando Sara fala sobre o desenvolvimento dos profissionais da área tributária. Para ela, um dos principais erros é tentar demonstrar conhecimento técnico em todas as situações. O profissional precisa entender quem está ouvindo e adaptar a forma de explicar.
Sara diz que profissionais de outras áreas não precisam dominar o conhecimento tributário. Cabe ao tributarista explicar como as regras impactam o trabalho dessas pessoas.
A capacidade de traduzir questões tributárias também se tornou importante em sua atuação diante das mudanças na legislação. Para Sara, o profissional precisa conseguir levar o conhecimento técnico para situações concretas do negócio: “É entender, tentar falar a língua das pessoas“, afirma.
PROPÓSITO
Ao olhar para a carreira, Sara identifica uma mudança na própria forma de trabalhar. O conhecimento técnico continua sendo uma parte importante da profissão. Mas passou a dividir espaço com processos, estratégia e comunicação.
Fora do trabalho, ela também passou a buscar referências relacionadas a liderança e desenvolvimento pessoal. Atualmente, está está ouvindo o audiolivro “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, de Stephen Covey.
“Esse livro, para mim, está sendo muito legal. Porque eu sempre foquei em estudar a parte técnica […] E eu acho que ele é um livro que extrapola um pouco a parte profissional“, disse.
Para Sara, o aprendizado tem provocado reflexões sobre liderança e também sobre a vida pessoal. Ao falar sobre o conselho que daria a quem está começando na área tributária, Sara volta ao tema da comunicação.
Para ela, o desafio não está apenas em conhecer a legislação. Está em conseguir explicar esse conhecimento para quem precisa tomar decisões:
“Eu acho que o maior desafio do profissional de fiscal não tem que ser decorar a lei. Tem que ser como você vai explicar essa lei para alguém e fazer aquela pessoa entender“, concluiu.








