A reforma tributária não falha na lei, mas nas pessoas

Imagem: Reprodução via Magnific

Por Daniel Mascareñas

O Brasil está prestes a enfrentar a maior transformação fiscal de sua história. A unificação de cinco tributos em dois, um IVA dual, um período de transição que se arrasta por anos e uma infraestrutura administrativa inteira sendo erguida do zero. É um projeto de engenharia jurídica impressionante. Mas há uma pergunta que nenhuma emenda constitucional consegue responder: quem vai implementar isso e em que estado emocional?

A Reforma Tributária não é um documento. É uma operação executada por pessoas. E os profissionais em geral, sejam de finanças, contabilidade, tecnologia ou gestão, estão, hoje, entre as pessoas mais adoecidas do planeta.

Há um equívoco que atravessa todos os debates técnicos: tratamos a Reforma como se ela falhasse apenas quando o texto da lei está mal redigido ou com falta de clareza. Mas a história fiscal brasileira está cheia de muitas leis até certo ponto bem escritas, porém mal executadas. Por quê?

Porque entre a clareza da norma e a implementação bem-sucedida existe uma variável que os seminários, congressos e workshops ignoram: a capacidade emocional das pessoas que precisam transformar a norma em processo, o processo em sistema e o sistema em rotina.

A lógica é implacável: clareza técnica da lei somada à capacidade emocional das pessoas resulta em implementação bem-sucedida. E o inverso? Quando a capacidade emocional tende a zero, a clareza jurídica não salva nada. O resultado é a paralisia técnica e, depois, a falha sistêmica.

Uma reforma pode ser tecnicamente perfeita e, ainda assim, morrer nas mãos de equipes exaustas, ansiosas e tomando decisões no piloto automático.

Enquanto o Congresso Nacional contava os votos, os dados sobre quem operacionaliza a economia brasileira já estavam na mesa. E são desconfortáveis:

  • 9,3% da população brasileira tem transtorno de ansiedade, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde publicada em 2017 — o primeiro lugar no mundo;
  • 30% dos profissionais sofrem de burnout, segundo divulgação da Associação Nacional de Medicina do Trabalho em 2023 — somos o segundo país do mundo em diagnósticos na comparação da International Stress Management Association;
  • o efeito combinado disso: queda de produtividade, afastamentos, deterioração da saúde mental e um custo de quase R$ 400 bilhões por ano à economia brasileira, segundo estimativas da Federação das Indústrias de Minas Gerais.

Pare para digerir esse último número: R$ 400 bilhões. Uma casa decimal inteira de PIB evaporando todos os anos, não por falta de técnica, mas por falta de gente inteira. Agora imagine esse mesmo adoecimento operando a maior transição fiscal da nossa história. Você não precisa ser especialista para prever o desfecho.

Um país ansioso não fica mais pronto para o futuro. Ele fica mais vazio para o presente e é no presente que a transição tributária precisa acontecer.

Há um padrão que se repete em toda reorganização de grande porte, e a Reforma não será diferente: o colapso não começa na execução. Ele começa na liderança.

Líderes que já operam no limite da exaustão não reconhecem os próprios sinais quanto mais os da equipe. E os sinais estão aí, à vista: pessimismo que se disfarça de “realismo”, desconcentração que se chama de “sobrecarga legítima”, insônia que vira rotina, decisões adiadas que viram “maturação”, cansaço que se naturaliza como “custo do cargo”.

O detalhe é que decisões tributárias erradas, tomadas por lideranças esgotadas, não aparecem no balanço como “erro humano”. Aparecem como multa, retrabalho, passivo fiscal, perda de crédito, disputa administrativa. O custo do adoecimento é invisível até o momento em que vira um auto de infração.

Aqui está a virada de chave que a discussão corporativa ainda resiste em aceitar: autocuidado não é egoísmo. É infraestrutura.

Seu tempo, sua atenção e sua energia são finitos. A diferença entre o topo da performance e o burnout não é o volume de esforço, mas a arquitetura do sistema operacional que você escolhe rodar todos os dias.

A fisiologia não negocia: os hormônios do bem-estar se repõem de forma mais efetiva no descanso. Se você não reabastece, o corpo produz hormônios desenhados para a emergência, como a adrenalina. E quem vive em estado de emergência permanente não implementa uma reforma complexa. Ele apenas sobrevive a ela e faz a organização sobreviver do mesmo jeito, no improviso, no retrabalho e no erro.

Por isso, na prática, os rituais que parecem simples são, na verdade, disciplina operacional: o dia não começa no celular, ele começa com uma manhã intencional. O domingo não serve para planejar a semana, serve para esvaziar. Leitura de e-mails precisa ser em blocos de tempo do seu dia, reuniões não deveriam ultrapassar 30 minutos, pausas estratégicas a cada 2 horas para oxigenar o cérebro deveriam ser obrigatórias e um ponto final, todo dia, que celebra as entregas em vez de ruminar o que faltou.

Se você lidera uma equipe que opera a transição tributária, o seu papel não é apenas gerenciar tarefas. É criar um ambiente de trabalho saudável e seguro. A segurança emocional é, na prática, o fator crítico de sucesso de qualquer implementação complexa tão importante quanto a segurança jurídica. E ela se constrói com três movimentos:

1. Valide a realidade. Reconheça as emoções da equipe. Pergunte “como você está?” com a intenção real de escutar e não como preâmbulo para um pedido de relatório.

2. Crie a base da pirâmide. Estabeleça espaços seguros de diálogo, onde dúvidas sobre a nova legislação possam ser levantadas sem medo de punição. Transforme dúvida em colaboração e é assim que o erro se converte em aprendizado antes de virar passivo.

3. Institucionalize a pausa. Pausas estratégicas não são concessão. São planos de bem-estar com status de política organizacional.

Há uma defesa e um avanço nisso. A defesa é a prevenção ativa dos riscos psicossociais: estresse, burnout, ansiedade. O avanço é a promoção de um clima organizacional positivo e sustentável. Sem os dois, não há clareza jurídica que segura a implementação.

A Reforma Tributária tem cláusulas técnicas, cronogramas e regulamentos. Mas a cláusula mais importante não foi escrita no texto constitucional: é a decisão de tratar as pessoas como o ativo crítico da transição.

Uma reforma não se implementa com leis. Ela se implementa com profissionais de finanças que dormem, contadores que não estão em estado de alerta permanente, lideranças que escutam e equipes que podem errar, corrigir e aprender sem medo.

O Brasil já provou que sabe escrever leis (ou pelo menos tenta). O desafio agora é provar que sabe cuidar de quem vai colocá-las de pé. A pergunta que fica para cada líder, cada gestor e cada profissional da área fiscal não é sobre a alíquota, o split payment ou o período de transição. É sobre você, respondendo com honestidade: Como você está?

A Reforma vai esperar a sua resposta. Ela não tem pressa, mas tem prazo. E o prazo dela passa, inevitavelmente, pela sua capacidade de se manter inteiro até lá.

Fiquem bem com saúde do bem.


Daniel Mascareñas tem mais de 19 anos de experiência. Já foi líder de equipes tributárias em empresas globalizadas, incluindo EY, Bunge, CMOC, Dasa e ALE combustíveis. Atualmente head of tax da ALE Combustíveis.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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