
Por Enzo Bernardes
O Brasil vive uma transformação histórica com a aprovação da reforma tributária do consumo. Para as grandes corporações, a adaptação não é apenas uma questão de compliance fiscal, mas um projeto corporativo que redefine estratégias de negócios, cadeia de suprimentos e formação de preços.
Em entrevista exclusiva, Alexandre Kondo, CFO da Hitachi Energy no Brasil, revelou os bastidores dessa mobilização, o investimento em consultoria especializada e os desafios de convencer a matriz global sobre a urgência do tema.
Com 71 anos de presença no Brasil, a complexidade da reforma exigiu uma abordagem de projeto.
O primeiro desafio
O primeiro grande obstáculo de Kondo foi uma mistura de questão orçamentária e geopolítica: convencer a matriz na suíça (que se reporta à Hitachi Limited no Japão, cujo ano fiscal começa em abril) a aprovar um investimento não previsto:
“O grande primeiro desafio que eu tive não foi acessar o headquarters, mas explicar para a nossa matriz o que era a reforma tributária e por que precisaríamos de um investimento adicional”, disse.
Com o orçamento fiscal de 2025 já fechado, Kondo precisou estruturar argumentos sólidos e orçamentos preliminares para consultorias e recursos adicionais. A aprovação só veio após uma visita presencial ao Brasil do Global Tax Manager da Hitachi Energy:
“Ele compreendeu e se tornou um grande aliado da Hitachi Energy no Brasil perante a matriz para que esse budget complementar fosse aprovado. Esse foi o nosso primeiro grande desafio aqui no Brasil”.
Time de projeto e consultoria dupla
Reconhecendo que a complexidade da mudança vai além do departamento fiscal, a Hitachi Energy estabeleceu um time de projeto liderado por especialistas em impostos, mas com representantes de suas cinco unidades de negócio. Para dar suporte, a empresa buscou duas frentes de consultoria:
- Consultoria de negócios: para prover embasamento estratégico e conhecimento das decisões no Congresso;
- Consultoria de sistemas: essencial, dada a utilização do SAP S/4HANA no Brasil, para customizar o ERP e suas interfaces com as plataformas de apuração de tributos e obrigações acessórias.
A meta é garantir que, a partir de 2026, a empresa esteja preparada tanto do ponto de vista de tax compliance quanto de negócios.

Impactos a operação e custo
O CFO Alexandre Kondo ressalta que o impacto da reforma vai muito além da área fiscal, exigindo treinamento intensivo e reavaliação de parceiros comerciais em toda a cadeia de valor.
No âmbito da logística e fornecedores, a empresa está reavaliando a competitividade de fornecedores domésticos que, atualmente, dependem de incentivos fiscais estaduais relevantes, questionando se eles continuarão sustentáveis:
“A pergunta é: esses fornecedores continuarão sendo competitivos com o avanço da reforma tributária? Quer dizer, quando os incentivos estaduais caírem, esse fornecedor seguirá sendo competitivo?”.
Essa análise é crucial, pois a Hitachi Energy trabalha com produção por ordem, onde cada produto e sistema é customizado. Por isso, o time de vendas e propostas está sendo intensamente treinado para entender como o novo sistema (IBS/CBS) e o conceito de split payment afetarão o preço líquido e a formação do preço final, um fator crucial para a rentabilidade.
Outro desafio específico da empresa, que atua no mercado de transmissão de energia, é o gerenciamento dos projetos de longo prazo em seu portfólio de contratos, com entregas previstas para os próximos 48 meses:
“Esses projetos já serão impactados pela reforma tributária. Eles foram vendidos no conceito atual, antes da reforma, e, certamente, esses projetos de longo prazo, com entregas pelos próximos quatro anos, serão afetados justamente pela transição”.
Investimento de US$ 200 milhões em expansão segue firme
A Hitachi Energy está inserida no que chamamos de “superciclo da energia elétrica”, impulsionado pela descarbonização, aumento da demanda de data centers e eletrificação veicular. Este cenário resultou na aprovação de um investimento de US$ 200 milhões para expansão da fábrica em Guarulhos e construção de uma nova fábrica de transformadores de potência em Pindamonhangaba (SP).
Questionado se a reforma impactou essa decisão, Kondo esclarece que a demanda exponencial foi o fator determinante, e o investimento foi debatido e aprovado antes da reforma se tornar o centro das discussões:
“As questões da reforma tributária não estavam ali como um assunto de extrema relevância para o investimento, dada a demanda exponencial que temos”.
A mobilização interna na Hitachi Energy no Brasil assegura que a empresa estará pronta para a transição fiscal, contando com o apoio de consultorias, a atualização recorrente do seu ambiente de sistemas e, principalmente, a mobilização de suas equipes de negócio para entender os impactos no custo, no fluxo de caixa e na competitividade.
Este artigo foi publicado anteriormente na 5ª edição da Revista da Reforma Tributária. Clique aqui para assinar e receber as próximas edições.




