O custo invisível da reforma tributária: a falta de preparação

Foto via Freepik

Por Lucas Gonçalves

Quando se fala em Reforma Tributária, a maior preocupação de muitos empresários costuma ser a mesma: quanto imposto a empresa vai pagar.

É uma preocupação legítima. Mas existe um custo que ainda recebe pouca atenção e que pode ser muito mais caro do que qualquer mudança de alíquota: a falta de preparação.

A Reforma Tributária já deixou de ser um evento futuro. Ela está acontecendo agora. Enquanto muitas empresas aguardam a definição das alíquotas ou a entrada efetiva do IBS e da CBS, diversas mudanças estruturais já começaram a impactar processos, sistemas e operações.

A transformação já começou

Os próximos meses serão marcados por uma sequência importante de mudanças.

Em julho, entra em vigor o CNPJ alfanumérico, exigindo adequações em sistemas, integrações e bases cadastrais.

Em agosto, empresas do regime normal (Lucro Real e Lucro Presumido) passam a destacar IBS e CBS nos documentos fiscais de forma obrigatória. Ou seja, é o fim do período de adaptação, iniciando uma nova fase de convivência entre o modelo atual e o futuro sistema tributário.

Em setembro, empresas optantes pelo Simples Nacional precisarão tomar decisões relevantes sobre sua forma de atuação no novo modelo a partir de 2027. Essas empresas vão precisar optar por:

  1. Permanecer exclusivamente no Simples Nacional, pagando uma única guia com todos os impostos;
  2. Recolher o CBS por fora do DAS, assumindo, possivelmente, uma carga tributária maior, mas entrando na sistemática regular de tributação, com aproveitamento e repasse de créditos integrais para seus clientes B2B. 

Também em setembro, as empresas prestadoras de serviço do Simples Nacional passam a emitir a NFS-e exclusivamente pelo Ambiente Nacional.

E isso é apenas parte da agenda.

Até o final do ano, o mercado ainda aguarda definições importantes relacionadas às alíquotas da CBS, regulamentações complementares, manuais e notas técnicas, regras do Imposto Seletivo, Split Payment e diversos ajustes operacionais que influenciarão diretamente a preparação das empresas para 2027.

O custo que ninguém vê

O grande risco não está apenas na mudança da legislação. Está na demora em agir.

Empresas que deixam para discutir a reforma apenas quando uma obrigação se torna obrigatória costumam enfrentar problemas como:

  • Sistemas não preparados;
  • Processos inadequados;
  • Cadastros inconsistentes;
  • Equipes sem treinamento;
  • Fornecedores em estágios diferentes de adaptação.

Tudo isso gera custos. Custos com retrabalho, custos com consultorias emergenciais, custos com correções de processos, custos com perda de produtividade e, em alguns casos, custos financeiros decorrentes de erros operacionais que poderiam ter sido evitados.

O crédito tributário também depende da preparação

Outro ponto frequentemente ignorado é a preservação dos créditos.

A transição entre os modelos tributários exigirá atenção especial das empresas para garantir que créditos acumulados sejam corretamente tratados e aproveitados dentro das regras estabelecidas.

Isso exige organização documental, controle de informações e entendimento das normas que ainda estão sendo regulamentadas.

Quem começar a se preparar apenas quando as regras estiverem completamente definidas provavelmente terá pouco tempo para reagir.

Preparação não significa fazer tudo agora

Existe uma falsa percepção de que se preparar para a Reforma Tributária significa executar um projeto complexo imediatamente.

Na maioria dos casos, o cenário real não é esse.

Preparação significa entender os impactos, mapear riscos, avaliar sistemas, revisar processos, capacitar equipes e criar um plano de adaptação.

Empresas que seguem esses passos conseguem absorver as mudanças de forma gradual e controlada. As que não fazem, acabam reagindo sob pressão.

O maior risco é acreditar que ainda há muito tempo

A Reforma Tributária será implementada de forma progressiva, mas isso não significa que o caminho correto seja esperar que as coisas aconteçam.

Na prática, os próximos meses serão decisivos para a construção das bases que sustentarão a operação tributária dos próximos anos.

O desafio não será apenas entender a nova legislação.

Será necessário preparar pessoas, processos e sistemas para uma realidade completamente diferente da que conhecemos hoje.

E talvez esse seja o principal aprendizado desse momento: o maior custo da Reforma Tributária não está necessariamente nos tributos.

Está na falta de preparação para eles.


Lucas Gonçalves é Especialista de Reforma Tributária na Omie.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

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